Esse é o 3º caderno da Série Lutas Populares no Brasil,
que apresenta o tema Ligas Camponesas.
O tema foi tratado durante o 2º Ciclo de Debates e Filmes sobre
História das Lutas Populares no Brasil, organizado pelo CEDAP em
Campinas.
O objetivo dessa série de publicações é recuperar
a memória das lutas populares no Brasil, registrando o que se passou
durante o debate.
Antes da exposição do tema, foi projetado um trecho do
filme "Cabra Marcado para Morrer".
A coordenação do debate ficou a cargo de Ophélia
Amorim Reineck, que foi advogada das Ligas Camponesas, e atualmente é
secretária municipal dos negócios jurídicos da Prefeitura
Municipal de Campinas.
Ophélia contribuiu de forma especial nesse debate, por seu testemunho
emocionado dessa luta da qual foi protagonista.
A exposição ficou a cargo de Marília Castro Conforti,
mestranda de Sociologia Rural e que pesquisou este assunto na região
da Paraíba (município de Cajá), e é estudiosa
da questão agrária no Brasil.
Que esse caderno seja um real instrumento pelas lutas populares de apropriação
de nossa história.
A Equipe do CEDAP.
Lutas Populares no Brasil
Comentários sobre o filme "Cabra Marcado
para Morrer"
Ophélia
Eu estou profundamente ligada ao filme "Cabra Marcado para Morrer".
Não só porque ele retrata uma história da qual participei
como estudante na Paraíba e como advogada das Ligas Camponesas,
mas também porque eu achei o roteiro do filme no 7º Batalhão
de Engenharia, sediado em Campina Grande, durante o tempo em que eu estive
presa, de abril até agosto de 1964. Então, eu guardei o
roteiro e entreguei ao Coutinho em 1968, quando eu já morava em
São Paulo e ele me disse na ocasião: "Ophélia,
eu nunca pensei que um dia eu ia voltar a ver esse roteiro", porque
era o único existente, era a única cópia.
Eu vou contar ligeiramente. Como vocês viram, o filme estava sendo
feito em vitória do Santantão, no interior de Pernambuco,
mas quem ocupou a cidade de Vitória, no dia 2 de abril de 1964,
foi o Batalhão de Engenharia de Campina Grande, a minha cidade,
e dentro da estratégia militar era mais fácil o Batalhão
de Engenharia sair de Campina Grande e ocupar Vitória, onde eles
achavam que estava havendo toda a preparação da guerrilha,
do que qualquer outra tropa de Pernambuco. Então, como o pessoal
havia fugido de Vitória no dia anterior, tinha largado tudo, e
um dos oficiais que comandava a tropa achou o roteiro no meio de um canavial,
porque os camponeses quando viram o Exército correram todos das
suas casas,e ele guardou, e durante o tempo em que estive presa neste
quartel, um dia esse oficial, conversando comigo contou: "Olha, Ophélia,
eu fui lá para Vitória e achei o roteiro no meio do canavial.
Você quer pra você? E ninguém nem soube que eu peguei
isso." Então, ele me entregou o roteiro e eu guardei escondido.
Até que, em 1968, eu encontrei um companheiro nosso que participava
das filmagens e disse: "Olha, eu tenho o roteiro de Cabra Marcado
para Morrer". E ele disse: "Eu não acredito, Ophélia!".
E eu estava na Paraíba e ia passar no Rio de Janeiro e então
liguei para Coutinho, marcamos um encontro em São Paulo para entregar
o roteiro do filme, mas ele não pôde ir e eu entreguei à
mãe dele, na rua Maria Antonieta, num apartamento.
Depois, quando ele foi filmar, ele não sabia onde eu estava. Ele
me disse que me procurou por todo o Brasil e não me achou, para
perguntar se eu queria que ele colocasse meu nome no filme. Ele disse
que podia ser que eu não quisesse, por mil razões. Então,
ele disse apenas que uma advogada das Ligas Camponesas guardou o roteiro.
Então, estou aí nessa história e vamos discutir com
a Marília, que eu agora apresento a vocês, que não
só morou na Paraíba, como escreveu, dado seu engajamento
político, um trabalho sobre as Ligas Camponesas, que nós
vamos discutir com vocês sobre a proposta das Ligas e, desde já
nos colocamos à disposição.
Marília
Realmente é muito emocionante estar aqui e falar das Ligas Camponesas
na Paraíba, que foram um acontecimento que... vocês devem
ter percebido pelo filme, apesar dos problemas de som. O filme dá
para ser visto com um som muito melhor e eu até recomendaria a
vocês que vissem, não só porque ele tem uma segunda
parte que é a parte em que Eduardo Coutinho reencontra um por um
os filhos da Elizabeth e que até hoje a própria Elizabeth
não deve ter tido a oportunidade de juntar todos os filhos, nos
vinte anos em que ela ficou escondida da repressão. É emocionante
também porque eu morei na Paraíba e fiquei muito perto,
com a pesquisa que eu comecei a fazer em 1979, na cidade de Cajá,
sobre as condições da agricultura na Paraíba, quando
eu estava ligada à Universidade Federal da Paraíba. Então,
eu acho que nessa época a Ophélia já morava em Campinas,
naquela época, eu tinha os arquivos de teste, uma série
de fotos da Ophélia como advogada das Ligas Camponesas de Campina
Grande e também como porta-voz de todo o movimento.
Ela, junto com Elizabeth Teixeira, andou pelo Brasil todo divulgando
e colocando as propostas que as Ligas faziam naquela época. Além
disso, a Ophélia tem uma série de outros predicados que
não vou nem colocar aqui. Ela é conhecida em Campinas, hoje,
não só como advogada. Eu acho que ela cumpre um grande papel.
Mas como mulher, também na defesa das lutas, dos interesses da
questão da mulher. Então, tirando a parte emocional, eu
gostaria de falar do filme um pouco.
Eu acho que ficou meio truncada muita coisa para vocês, e realmente
eu recomendaria que o filme fosse visto por vocês novamente do começo
ao fim. A segunda parte acaba sendo também muito interessante.
Os nossos parabéns ao Eduardo Coutinho, por ter conseguido reunir
tanta coisa importante. Ele conseguiu reunir a história das Ligas,
personagens; conseguiu fazer um trabalho certo, na hora certa; foi ele
que descobriu Elizabeth Teixeira. Eu, na minha pesquisa, e mais outros
colegas da Universidade Federal da Paraíba, nós andávamos
muito atrás da Elizabeth. Eu estive várias vezes na casa
do pai dela em Café do Vento, na cidade de Sapé. E ele era
uma pessoa realmente muito reacionária, muito desconfiada; era
muito difícil ter contato com ele, e quando ele dizia que não
sabia do paradeiro da Elizabeth Teixeira, eu não acreditava. Pois
é, imaginem, o pai tem que saber. Então, o grande mérito
de ter desentocado a Elizabeth Teixeira, de ter colocado ela novamente
no mundo político, porque ela continua hoje tão combatente
quanto antes, eu acho muito importante. Eu acho que toda a equipe do filme,
também com a produção de Leon Richiman, que foi um
grande cinematógrafo brasileiro, eu acho que toda essa gente e
muitas mais, que a gente não pode estar citando aqui, têm
um mérito muito grande. Então, eu acho que o filme daria
muito pano pra manga. A gente poderia falar uma série de detalhes,
mas tirando o emocional de lado, agora, eu gostaria de falar um pouco
sobre a questão, mas do ponto de vista da Sociologia, da Política.
É uma análise mais científica da coisa.
Ligas Camponesas
As Ligas Camponesas começaram no período de 1950 –
1960 e se desenvolvem dentro de um quadro de transformações
que a economia brasileira apresentava na época tanto na indústria
quanto na agricultura. De um lado, porque o Brasil estava sendo inserido
no âmbito internacional dos interesses monopolistas do Capitalismo.
então, multinacionais começam a querer entrar com mais ênfase
na economia brasileira e isso se reflete não só no crescimento
industrial. O país se acelera através da região centro-sul
e isso vai se refletir na agricultura, que passa a ter também padrões
de crescimento mais acelerados; começa haver interesse das multinacionais
em colocar produtos, tais como: máquinas e tratores, insumos agrícolas,
agrotóxicos, e daí para frente é todo o desenvolvimento
que a gente tem acompanhado na agricultura brasileira. Essa concorrência
dos produtos fabricados que vinham do centro-sul e da moderna agro-indústria
– já muda também o papel da agricultura; ela passa
a não ser só agricultura extrativa e comercial; ela passa
a ter uma modificação pela indústria até chegar
aos enlatados – mais tudo que a gente conhece hoje, tudo isso leva
a região Nordeste a uma concorrência que não podia
ser suportada pelos coronéis latifundiários em termos de
produção. Então, é refeito o pacto de classes;
os latifundiários passam a aderir lentamente aos interesses dessa
reformulação econômica que vinha de fora, entrava
no Brasil, e do centro-sul passa à região Nordeste e, portanto,
eles não podiam mais continuar se fechando na órbita de
poder do latifúndio.
Se são impostas novas formas de produção, impõe-se
conseqüentemente a reformulação das relações
de trabalho. Sapé, na época, era uma cidade rica em produção
de cana, como é ainda hoje toda a Zona da Mata do Nordeste e ra
rica também em cultura de subsistência. Começa, então,
na época, o abacaxi a despontar como outra riqueza.
Só para ter um dado para vocês acompanharem o que vai ser
a questão social, a produção de cana aumentou de
50 mil toneladas de 1950 para 182 mil toneladas na década de 60:
então, esses dados podem dar uma idéia do crescimento da
produção e, naturalmente, das relações de
trabalho. O abacaxi aumentou de 12 mil frutos, em 1950 para 18 mil frutos
em 60. Como as terras tinham baixa mecanização, havia, em
50, 18 tratores na cidade de Sapé, e em 60, já havia 85
tratores. Então, havia necessidade de... como não se aumentava
muito a mecanização, de se aumentar a área física.
havia cada vez menos lugar para a cultura de subsistência, e, nas
grandes fazendas, o plantio ia avançando cada vez mais sobre as
casas e sobre a cultura dos moradores. Que era bem típico de toda
a região Nordeste o emprego da força de trabalho de moradores
de toda a Zona da Mata em plantação de cana. Essa área
era uma tradição. Então, os moradores começam
a ser deslocados. Eles já não podiam mais ficar nesse esquema
de relação de trabalho.
Os latifundiários começam, por necessidade de ocupação
da área, a derrubar com tratores os roçados de subsistência.
Eles derrubam também árvores frutíferas permanentes,
que não podiam deixar o agricultor cultivar, e a partir dessa nova
lógica da reprodução capitalista é que as
Ligas Camponesas começam a aparecer. Então, eram fatores
que vinham de fora, de um todo econômico e político; a produção
dentro do latifúndio tinha que ser maior e melhor.
A exploração da força de trabalho através
da moradia não satisfazia mais em termos de produtividade. O latifúndio
também não podia continuar com essas bases tecnológicas
atrasadas; ele não podia mais produzir economicamente nesse contexto.
O desenvolvimento econômico dentro da lógica capitalista
deve ser feito mecanizado e tornando a mão-de-obra assalariada,
o que leva à possibilidade de se rebaixar o custo de produção
da força de trabalho. Isso é essencial para o desenvolvimento
do capital. Não é com esse tipo de relação
de trabalho que a agricultura iria se desenvolver. Além disso,
com a mão-de-obra assalariada é possível intensificar
a exploração do trabalho através da divisão
do trabalho e é o que foi feito depois, com a expulsão dos
moradores. Começa-se a partir da divisão do trabalho, em
que as tarefas são individualizadas e determinado trabalhador faz
aquela tarefa repetidamente, passando a seguinte etapa para o outro. E
isso não podia ser feito com as relações de moradia
ou de foleiro ou de arrendatário. Dessa forma, a gente vê
que o processo de mudança é geral; ele muda não só
a economia local como ele muda também a questão regional,
e na economia brasileira em geral, com toda a fase desenvolvimentista
que começa nos anos 50, principalmente com o governo Juscelino,
existe uma força maior e uma entrada das multinacionais.
A partir daí, no Nordeste, os colonos começam a ser dispensados
pouco a pouco. No caso dos rendeiros, em que eles tinham a parte que era
autorizada a ser explorada pelo latifundiário, nessa fase, eles
continuavam a ter essa faixa de terra, só que eles iam limpando
o mato, iam destocando, e a partir de uma terceira fase de cultura de
subsistência, ele já tinha que entregar essa faixa de terra
limpa para os latifundiários. Dessa forma, o latifundiário
acabava tendo o terreno limpo, o que não lhe custava nada em termos
de mão-de-obra. Inclusive conheci uma fazenda de 5 mil hectares
que foi toda preparada para a agropecuária nessas bases.
A conseqüência disso tudo que a gente conhece hoje também
é de ter se tornado comum na agricultura o assalariamento do trabalhador
rural, ou seja, o bóia-fria. Então, o trabalhador passa
a ser assalariado por diário, inclusive sem direitos trabalhistas.
O Estatuto do Trabalhador Rural foi promulgado em 1963. Até hoje,
ele virou letra morta e não encontrou nenhuma eficácia em
termos de aplicação. A mão-de-obra do trabalhador
por diária é uma tônica na agricultura, tanto no sul,
quanto na agricultura do Nordeste hoje.
Em resposta a tudo isso, as Ligas Camponesas aparecem nesse cenário
respondendo por lutas políticas e sociais contra esses padrões
que haviam sido estabelecidos a partir da economia.
Como condições para as Ligas Camponesas, nós podemos
apresentar os seguintes pontos: 1) a agricultura passa a ser a indústria
dos enlatados, dos sucos, é a indústria de transformação;
2) modificam-se as forças de exploração do trabalho.
A exploração passa a ser mais intensiva, porque o capital
necessita, para desenvolver a sua lógica, de uma produção
ampliada, que tem o trabalhador à disposição e que
tem uma força de trabalho em que ele pode realmente intensificar
o ritmo, e é isso que vai fazer com que a mais valia aumente; não
aquelas relações atrasadas que havia antigamente na agricultura
do Nordeste; 3) conseqüentemente, alteram-se as relações
de poder. Em nível nacional, as oligarquias passam a não
ter mais o poder que tinham antes e também essa conjuntura populista
dos anos 50 favorecem a organização dos trabalhadores e
associações de sindicatos.
Então, notamos o seguinte: a estrutura do latifúndio é
quebrada a partir de fora; todas as condições acontecendo
na economia toda. Mas é a partir da sua organização
interna que vai se expressar mais o conflito. Nós vamos ver como
se organizava o latifúndio. Ele representava uma empresa autocrática
baseada no poder absoluto do proprietário.
As relações de trabalho eram muito personalizadas. O trabalhador
exercia suas funções, tendo o administrador em cima para
fiscalizar. Havia o cambão, que era a prestação de
dias gratuitos de trabalho, porque se o morador tinha uma casinha e um
pedacinho de terra para cultivar, ele tinha que dar certos dias de graça
para a produção. Existia também a condição
que era um dia de trabalho gratuito mais uma diária menor do que
aquela paga na praça. Existia também o vale de barracão,
que obrigava o trabalhador a comprar dentro do latifúndio, que
mais ou menos, quem assistiu CAIJIM viu o que era a dependência
do trabalhador ao barracão. E havia também relações
de apadrinhamento, porque o latifundiário exercia esse tipo de
relação pessoal com a família e acabava ficando numa
indefinição. Ele usava essas famílias como, inclusive,
currais eleitorais, e uma série de outras influências morais
e políticas que ele podia exercer, já que as relações
eram mais personalizadas. Além disso, o latifúndio, o capital
da época, não pagava direitos sociais e, inclusive não
sei se vocês perceberam numa cena do filme que aparece um administrador
falando com os camponeses, em que ele diz: "Quando vocês precisam,
eu levo as mulheres para o hospital.", quer dizer, eles se vangloriam
de dar toda a "assistência social" para os camponeses.
O poder de vida ou morte de trabalhador está profundamente enraizado
na mentalidade dos coronéis, tanto que eles dispunham de milícias,
de polícias particulares dentro dos engenhos e usinas, que são
os famosos capangas do Nordeste. E isso perpassou muito nos conflitos,
nos enfrentamentos, nessa luta de classe toda que teve nas Ligas Camponesas.
Bem, foi contra tudo isso que as Ligas se opuseram; e se organizaram
como entidades civis e pacíficas para pedir garantias do trabalho.
O movimento teve como ponto de partida o Engenho Galiléia, 1955,
e espalhou-se depois por todo o Brasil. O Brasil todo conseguiu ter 218
Ligas, mas foram as do Nordeste as que tiveram maior nível de combatividade,
de resistência e de organização, provavelmente porque
as relações de trabalho eram mais atrasadas e havia um grau
maior de tensão. Mas houve Ligas também muito importantes
em Santos, Rio de Janeiro, Maranhão. No Maranhão, tiveram
12 Ligas. Em muitos outros lugares, as Ligas tiveram poder, mas elas acabaram
ficando mais conhecidas, exatamente pelo tipo de enfrentamento que tiveram,
na região Nordeste; marcadamente em Pernambuco, que teve 68 Ligas
e na Paraíba, que teve 15 Ligas.
Acontece que na Paraíba, apesar do número pequeno de Ligas,
elas conseguiram arrebanhar no estado todo 40 mil camponeses. Elas tinham,
segundo alguns críticos, 13 mil participantes; segundo alguns,
10 mil, em Sapé, seguidas da Liga de Mamanguabe, que devia ter,
na época, oito mil, 10 mil participantes. Pernambuco, teve 64 Ligas
espalhadas pelos engenhos e por todo o estado.
No início da organização, em Galiléia, o
pessoal procurou apoio de políticos, intelectuais e jornalistas,
para que pudessem divulgar e apoiar essas idéias, afim de que o
movimento se espalhasse.
Em meio a tudo isso, foi organizado o 1º Congresso de Salvação
do Nordeste, que ocorreu em setembro de 1955. Esse Congresso foi muito
importante, porque ele colocou uma nova interpretação sobre
a questão do Nordeste, a de que as condições climáticas,
a questão da seca é que não deixava a região
prosperar. Isso era uma ficção. Esse Congresso, através
desses intelectuais, desse pessoal que realmente lutava pela condição
de tirar o Nordeste da situação em que ele se encontrava,
condenou a estagnação da economia nordestina, exigindo medidas
do governo central; condenou também a estrutura agrária
retrógrada que havia no Nordeste, uma situação concentradora
e clamou também contra a baixa qualidade de vida dos trabalhadores
rurais. Tudo isso levou ao enfrentamento das oligarquias rurais (produtores
rurais) que dominavam a região, e isso levou à sua derrubada;
quebrou com o apoio dos julianistas, que era o pessoal ligado ao Francisco
Julião, que foi o primeiro e grande advogado das Ligas; com isso
se quebrava esse poderio todo que os latifundiários tinham no Nordeste.
Foi nesse Congresso também que, pela primeira vez se falou de reforma
agrária e o tema deixou de ser tabu.
Até 1961, as Ligas seguiram uma linha legalista. A partir de 1961,
com o 1º Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas
(CONTAG), os julianistas passaram a admitir uma nova palavra de ordem
que era: "Reforma Agrária, na lei ou na marra."
O Movimento começa com cunho pacifista e legalista, e, a partir
desse Congresso, ele se transforma e admite conflitos diretos com a base
na violência. Daí é que as coisas esquentam mais no
Nordeste, e depois em todo o Brasil, com a divulgação de
todo o movimento. A Ophélia, inclusive, foi uma das pregadoras
das Ligas na época, e andou muito pelo Brasil, divulgando essa
questão, que na época, era o entendimento que havia.
Para falar um pouquinho só do João Teixeira, inclusive
quando ele aparece naquela cena em que existe um administrador e os camponeses,
conforme me foi sempre passado nas pesquisas, ele foi uma pessoa que sabia
parlamentar, tinha índole conciliatória; era uma pessoa
calma, que ouvia os latifundiários; era ouvido por eles, não
tinha temperamento agressivo; aquele rapazinho que tem ímpeto de
agredir o administrador, ele é morto, depois, num conflito, numa
usina durante os conflitos pela reforma agrária.
Com a morte de João Pedro, a Elizabeth assume a presidência
da Liga, apenas para manter a figura do marido, que era um líder,
e para fortalecer o movimento. Só que ela surpreende a todos com
a sua capacidade de liderança e com a sua impressionante coragem;
coragem e combatividade, que ela tem até hoje. Hoje, ela está
morando em Santa Rita, uma cidadezinha perto de João Pessoa, com
o filho que veio de Cuba... e, vocês não viram no filme,
mas no final do filme, ela dando aquela impressão de que está
sendo solta, está saindo de toda a época que ela viveu,
de repressão, de esconderijo, ela começa a falar e a impregnar,
como Eduardo Coutinho e ela mostra a mesma coragem, o mesmo positivismo,
a mesma combatividade que ela tinha naquela época.
Bem, agora eu vou falar da cisão do movimento e, em seguida, eu
vou fazer um balanço de como terminam as Ligas Camponesas. O Movimento
se enfraqueceu, porque muitos trabalhadores tinham sido expulsos e já
eram assalariados, e isso vai enfraquecer a luta. Enfraquece também,
porque, em 1962, o Presidente João Goulart estimula a formação
de sindicatos e ele facilita a sindicalização, através
da organização, e os camponeses recebiam assistência
de ambos os setores: da Igreja Católica e do Partido Comunista.
Eles começam, já que havia um movimento de expulsão
e eles ficavam fora das grandes propriedades. Eles eram assalariados e
partiam para ter um novo tipo de associação. A direção
do movimento, também com a Elizabeth Teixeira, passa a ter duas
linhas: de um lado, ficava a Elizabeth e os julianistas, que tinham adotado,
a partir do Congresso da CONTAG, uma linha radical; e de outro lado, ficava
o Partido Comunista, que tinha uma linha de pensamento mais amena, que
procurava tentar modificar as relações de trabalho e achava
que com essa estratégia, eles iam chegar a melhores condições
na agricultura. E daí, então, a revolução
podia ser feita, e não pela via não pacífica. Mais
ou menos, foi isso que aconteceu com as Ligas e, agora, eu só queria
colocar no final, um balanço, que traz as lições
de luta do movimento.
Por um lado, não houve um preparo político adequado de
conscientização das massas. No filme, vocês podem
ver isso, porque aquele João Mariano que faz o papel do João
Pedro Teixeira... vocês vêem depois que ele é crente
ligado à Igreja, não quer ouvir falar e essa situação
foi muito recorrente. Na pesquisa que eu fiz, ficava muito difícil
a gente recuperar qualquer coisa das Ligas, porque todo esse pessoal que
havia sido expulso, que vivem em verdadeiras favelas rurais, em pontas
de rua, morando nas beiras d estrada do DNER, morando na feira de ferrovias
desativadas, ali por volta de Sapé, eles não querem nem
ouvir falar das Ligas. Muita gente participou conscientemente, que eu
também encontrei, mas muita gente também tem a mesma condição
que João Mariano mostra no filme.
Não houve tempo de se criar uma organização que
tivesse estrutura própria e que pudesse realmente falar por si,
e combater por si; então, havia esse despreparo todo.
O PCB lançava as bases de mobilização rural baseado
em outras formas de luta, querendo uma via institucional, através
da garantia dos direitos trabalhistas, e, a nível estratégico,
o desenvolvimento das forças, para que o campo se modernizasse
e houvesse melhoria das condições. Essas duas linhas ajudaram
a enfraquecer o movimento. O movimento termina não só porque
uma desestabilização e uma extinção pelo governo
de 64, mas porque também, por condições internas
de formação de estrutura, ele já vinha ameaçado.
Agora, por último, se por um lado, as Ligas foram extintas, não
é por isso que vai se considerar que o movimento dos camponeses
foi em vão, inútil. Ele tem um êxito, um grande êxito.
Ele mostrou grandes lições de luta. Ele mostrou a união
do proletariado; porque, hoje em dia, você não tem mais camponeses,
um trabalhador do campo. Você tem um assalariado que serve às
condições do capital, tanto na zona urbana, indústria,
como na agricultura. É isso que a lógica do capitalismo
faz. Eu acho importante qualquer tipo de análise mais profunda
sobre a questão agrária, que não vem ocorrendo muito
no Brasil... baseada numa forma mas aprofundada de análise, que
a gente possa ver os acertos e tomar posições políticas
e criar organizações políticas mais fortes. É
preciso entender muito a questão agrária, de uma forma muito
mais profunda, porque eu acho que a questão agrária é
muito pouco estudada na Brasil; tem havido uma série de posições
de organizações políticas, e mesmo de partidos, e
isso tem que ser um pouco mais pensado.
Para finalizar, eu queria deixar aqui meu apoio, porque, hoje, e Dia
do Trabalhador Rural, a todas as condições de luta. O trabalhador
rural vem sofrendo por injusta distribuição de terras, tanto
no Brasil como em toda a América Latina, e também contra
todas as condições de exploração que acabaram
intensificando a exploração da força de trabalho
do trabalhador rural.
Obrigada.
Debate
Pergunta: Como a senhora (Marília ou Ophélia) vê
a Reforma Agrária aprovada pela Constituição e qual
seria a melhor Reforma Agrária para o país?
(Ophélia) Em primeiro lugar, vamos fazer um esclarecimento. Não
existe Reforma Agrária aprovada na Constituição,
mesmo porque a Reforma Agrária depende de um projeto de lei ordinária.
A Constituição apenas faz referência à propriedade,
dizendo que ela tem uma função social, e competirá
ao legislador ordinário dispor sobre como será a realização
desse princípio constitucional de que a terra deve ter uma função.
E essa é a grande questão que teremos pela frente, agora,
nos próximos anos, porque a Reforma Agrária até hoje
não foi realizada no Brasil. Agora, quanto à qual seria
a melhor Reforma Agrária para o país, é evidente
que será aquela que faça a distribuição de
terra para quem nela trabalha. Essa era uma das propostas das Ligas Camponesas,
quer dizer: "Terra para quem nela trabalha." E eu acho que ainda
continua bem atual essa proposta, mas é evidente que não
será apenas a distribuição da terra, mas a criação
de uma infra-estrutura que permita que aqueles que recebam terra, possam
produzir nela. Porque não adianta distribuir a terra e não
dar financiamento para comprar o equipamento, principalmente no grau de
desenvolvimento tecnológico em que nos encontramos. Então,
como princípio a distribuição justa de terra, de
infra-estrutura para que quem receba a terra possa produzir. A outra questão
é a seguinte: que terra será objeto de desapropriação?
Essa foi a grande discussão na constituinte; isto é, quais
seriam as terras a serem desapropriadas para uma Reforma Agrária.
Seriam só as terras não produtivas? As terras que o seu
proprietário não estivesse produzindo ou seria determinada
pela extensão da terra? E, infelizmente, a UDR jogou pesado na
constituinte e ficou estabelecido que serão apenas aquelas terras
não produtivas, o que vai dificultar para a identificação
desse tipo de terra, e isso vai depender de uma grande luta do povo e,
principalmente, dos camponeses pela Reforma Agrária.
(Marília) Eu gostaria de colocar o seguinte: que toda proposta
reformista, como o próprio nome diz, ela indica uma reforma, e
não uma revolução. O PC, nessa questão das
Ligas Camponesas, propunha a Reforma Agrária, acreditando que a
proposta dele fosse muito revolucionária; o que não era;
e acabou do jeito que acabou. No caso do João Goulart, em 1963,
quando ele viu as Ligas pegando fogo, ele, para manter um pouco de ordem
e para ele conseguir dirigir a questão política, acabou
criando os sindicatos e dando todas as facilidades para que os sindicatos
pudessem canalizar os direitos dos trabalhadores rurais de forma pacífica.
Eu tenho para mim que a questão 'Reforma' está inserida
como um cabide no Estado. O Estado é formado por uma série
de grupos de interesses. A Constituição nova defende a propriedade
privada e ela fala também em criar condições para
que se desenvolva a Reforma Agrária. Ora, foi criado um Ministério
da Reforma Agrária; foi morto um ministro de avião. Aconteceram
uma série de coisas; o Ministério foi desafiado. Eu acho
que a luta continua. Existem vários exemplos de luta dos trabalhadores
rurais e que a gente deve dar todo o apoio e toda a solidariedade. Agora,
a gente deve também enxergar uma série de erros e deve entender
se a linha reformista é um cabide que está pendurado na
estrutura do Estado... conceder as condições para que essas
reformas se realizem, já que é reforma; então, essas
reformas dependem do Estado. Então, se se vai pensar numa linha
reformista, tem que se pensar num acordo de forças que possibilite
que nesse cabide também entrem os trabalhadores rurais.
Perguntas:
- Em que se baseou o direcionamento da Ligas Camponesas?
- Existiu alguma forma de apoio político por parte da
esquerda?
(Ophélia) Nesse ponto, eu vou divergir um pouco, Marília.
o problema é o seguinte: é evidente que as Ligas Camponesas
tiveram uma orientação marxista-leninista, até baseado
na aliança operário-camponês, mesmo porque elas foram
inicialmente lideradas pelo Partido Comunista Brasileiro. Então,
toda a sua estratégia e a sua tática política se
baseavam no leninismo e na aliança operário-camponês.
O apoio político existiu, lógico. Todo movimento tem que
ter o apoio de uma organização política, e essa organização
foi o Partido Comunista Brasileiro, no seu primeiro momento e, posteriormente,
quando houve uma divergência dentro do movimento camponês,
em que um grupo de comunistas passou a apoiar Julião, que tinha
outra proposta política, uma outra estratégia para as Ligas.
E elas também tiveram o apoio do Movimento Estudantil, que era
no início de 60 até 64, a UNE – União Nacional
dos Estudantes, a entidade a nível nacional mais representativa.
Teve o apoio de todos os sindicatos operários, da CGT – Confederação
Geral dos Trabalhadores e de várias entidades de classe, mas notadamente
dos estudantes e dos sindicatos mais fortes da região nordestina.
Então, esse apoio político existiu bastante, e até
de donas-de-casa, digamos assim.
Pergunta: De que forma se dava a atuação do advogado
engajado na luta camponesa?
(Ophélia) Como todo movimento, todos os conflitos acabam, dentro
dessa nossa estrutura, caindo no Poder Judiciário. Os camponeses
eram presos. Os camponeses eram expulsos da terra; tinham suas casas incendiadas,
suas plantações destruídas pelos animais dos proprietários
de terra. Então, a atuação nossa, de advogados das
Ligas, era para entrar com todos esses procedimentos judiciais, desde
habeas corpus. A primeira vez em que eu me encontrei com João Pedro,
eu ainda era estudante de Direito e tinha havido uma prisão, como
sempre ilegal, de um camponês lá de Sapé, e nós
fomos até lá para tentar soltá-lo, conversando com
o Comissário de Polícia (na região, nem existia delegacia,
mas comissariado) e acabamos tendo que requerer um habeas corpus ao Juiz
de Direito. Então, a atuação se dava assim. Agora,
nós tínhamos também a tarefa de organizaras Ligas
e de conscientizar os camponeses, porque eles nunca tinham visto uma organização.
Então, por exemplo, nós tínhamos que ir chamá-los,
mostrar tudo o que era, qual era a condição dele, porque
ele tinha que se reunir, e nós, então, (infelizmente e felizmente,
a Igreja ajudou muito) nós enfrentamos a força mais reacionária
dos locais que eram os padres é que tinham uma força tremenda
sobre os camponeses, porque todos profundamente eram religiosos e os padres
chegavam a ameaçar os camponeses de excomunhão, de não
batizar mais os filhos deles, de não mais casá-los no religioso,
caso eles se associassem as Ligas. Então, o maior apoio do latifundiário
era o da Igreja e com muita força.
Um dia desses, eu relembrando, ouvindo um padre falar, eu disse comigo
mesma: "Acho que a maior revolução do século
XX é o avanço político da Igreja Católica",
porque eu vi padres dizendo aos camponeses que caso eles entrassem nas
Ligas, eles não mais batizariam os filhos deles e que eles estavam
excomungados, e toda aquela pregação de que os camponeses
tinham direito, que os filhos de camponeses morriam sistematicamente era
a vontade de Deus.
Nós tínhamos essa vontade de mostrar aos camponeses que
toda aquela projeção era para evitar que os camponeses se
reunissem e lutassem.
Pergunta: Qual a real participação da Igreja nas
lutas camponesas, e qual o discurso utilizado pela Igreja para motivar
a organização das Ligas; era um discurso libertador?
(Ophélia) Eu vou discordar um pouco de Marília quando ela
falou que os Sindicatos Rurais foram incentivados pelo Governo Federal.
Tendo como chefe do Executivo Federa o Presidente João Goulart,
a Igreja, então, começou a fundar os sindicatos e chamava
Sindicato Cristão, quer dizer, era Sindicato Confessional Cristão,
para se oporem às Ligas.
Os Sindicatos Rurais foram fundados pelos padres mais reacionários
e pelo bispo mais reacionário do Brasil, na época, o atual
arcebispo do Rio de Janeiro – Dom Eugênio Sales, que foi o
grande organizador dos Sindicatos no Nordeste; exatamente para combater
as Ligas, chamavam-se Sindicatos Cristãos, porque com isso, eles
atraiam os camponeses.
Nessa primeira fase, a Igreja liderou os Sindicatos Rurais Cristãos
para combater as Ligas Camponesas e a nossa proposta mais radical, mais
de acordo com a situação em que se encontravam os camponeses.
(Marília) Pouco antes de 64, também já haviam umas
parcelas progressistas da Igreja Católica que, inclusive, começaram
a atuar na região de Cajá e Sapé, segundo eu vi nas
pesquisas, porque com a repreensão de 64, depois do Golpe de 64,
foi que a Igreja começou a partir para uma linha progressista.
Havia, eu acho que havia muito pouco, mas pelo menos em algumas áreas
por onde eu andei, ali em Cajá e Sapé, existia, porque eles
inclusive contavam que eram os padres que davam os conselhos para eles
participarem. Então, eu acredito que tinha alguma parcelazinha.
(Ophélia) Eu posso até falar bem, com bastante conhecimento
de causa, porque eu pertenci, durante o curso de Direito, à Juventude
Universitária Católica e acompanhei toda essa evolução
da teologia da Igreja na busca de um ideal histórico e era uma
divergência tremenda entre os padres que orientavam o movimento
da Ação Católica Estudantil, a JEC e a JUC e os padres
que estavam nas paróquias do interior. Existiam, sim, os padres
que tinham se ordenado em Roma e tinham vindo com todas as idéias
novas da Teard Chardem, toda a teologia que a Igreja buscava, a filosofia,
entende? Esses padres, eles apoiavam o movimento, mas eles estavam ligados
às universidades. Por exemplo: Dom Eugênio Sales extinguiu
a JUC na diocese dele, porque a Juc avançou muito politicamente.
Ele acabou com a JUC e com a Ação Católica na diocese
dele, e ele era o maior fundador dos Sindicatos Critãos Rurais.
Então, eu acho que até 1964, a presença da Igreja,
numa linha progressista e tendente a incentivar a luta camponesa, muito
foi pequena. Pode até ter havido, mas eu até tinha debates
tremendos.
Nos próprios sindicatos, é lógico que toda sua ação
social empurrava a sindicato a uma luta, a uma proposta muito mais radical
do que aquela que a Igreja pretendia, porque ela perdeu controle. O que
eu estou dizendo é o seguinte: que quando os sindicatos começaram
a ser criados com o apoio da Igreja, era mais ou menos para manter a luta,
que estava sendo muito acirrada durante o movimento das Ligas Camponesas.
Então, os sindicatos foram organizados e tinha toda uma intervenção
do Estado para exatamente disciplinar o direito do trabalhador dentro
de uma linha pacifista, não de uma linha reformista, ou revolucionária,
como estava sendo chamada e com o enfrentamento direto das classes, como
acontecia com os camponeses e latifundiários, exatamente uma linha
que podia ser conciliadora e pacífica.
Eu acho que o Partido Comunista não pregava a luta armada. Toda
a violência que aconteceu no movimento camponês foi desencadeada
pelo latifundiário. Nós apenas respondemos à violência
deles; mas o Partido não pregava a reforma, não pregava
a luta armada, e acreditava até que o Congresso Nacional votasse
uma lei de uma Reforma Agrária que atendesse a necessidade do campo.
Quer dizer, numa fase mais aguda, que a influência da Revolução
Cubana foi muito grande em todos os movimentos de esquerda do Brasil,
nós acreditávamos que nós teríamos que fazer
uma revolução tipo a Revolução de Cuba, para
que se conseguisse a Reforma Agrária. Mas isso não marcou
tanto o movimento camponês. Acho que marcou muito mais a proposta
de uma Reforma Agrária radical.
(Marília) A esse respeito, passando um pouquinho por perto, o que
queria dizer, é que vocês também podem ter observado
no filme, a reação desmedida dos latifundiários contra
a posição dos camponeses. Os camponeses tinham faca, foice
e enxadas; eles nunca foram armados. Então, vocês vêem
no filme que na hora que a polícia chegava na casa daqueles camponeses
onde tinha sido o Engenho Galiléia, onde tinham sido escondidos
os equipamentos cinematográficos, onde estavam as armas? Onde está
o arsenal; onde estão as metralhadoras? Quer dizer, o filme mostra
o ridículo em que a polícia caiu e o Exército, de
achar que os camponeses estavam armados. Em todos os conflitos, em todas
as mortes, e houve muitas mortes e alguns conflitos feios na história
das Ligas... Teve um episódio que foi chamado a chacina de Marí,
que morreram 11 pessoas; morreram alguns camponeses, alguns policiais
e alguns jagunços. Então, não houve nenhuma orientação
de Cuba no movimento e também não havia armas. Então,
as reações, o medo do latifundiário era desmedido
e era muito grande. Além do que, nesta população
que eu estudei, depois que os moradores foram expulsos... e nessas vielas
onde, hoje, esses trabalhadores – bóias-frias – estão
sediados... o nome do local que eu estudei chama Nova Cuba, porque como
os camponeses iam sendo expulsos dos latifúndios, eles iam se agrupando
em diversos lugares nos arredores de Sapé, e começou- se
a chamar o lugar para onde iam os camponeses de Nova Cuba, porque a ideologia
dominante queria fazer pensar que eles tinham sido expulsos. Quando nós
vimos que a expulsão se deu, foi no movimento do capital, movimento
de modernização do latifúndio, e não por causas
políticas, e até hoje, muitos trabalhadores rurais, das
pontas de rua, dizem que não: "Olha, nós não
fomos expulsos. Nós sempre trabalhamos com honestidade e nós
fazíamos parte da Revolução Cubana; não fazíamos
parte das Ligas." E, realmente, nunca houve nenhuma influência
direta da Revolução Cubana. lógico, havia toda propaganda
da Revolução Cubana, na época, que Julião
divulgava, mas não que tivesse tido alguma contribuição
concreta.
Perguntas:
- Ainda hoje, há muita injustiça frente a atuação
geral do trabalhador e, principalmente, dos camponeses?
- Você acredita em uma resposta agrária que atenda
aos interesses dos camponeses, por via pacífica?
(Marília) É o seguinte: eu sou favorável, até
pela minha formação ideológica, e só acredito
em uma reforma geral da sociedade. Qualquer projeto, qualquer reforma
que vier através da legislação do Estado Burguês,
do Estado Capitalista, é evidente que não atenderá
os interesses dos camponeses, e muito menos dos trabalhadores e do povo
brasileiro. Então, pessoalmente, eu acho que só uma reforma
na estrutura geral do país, que modifique a forma de distribuição
da riqueza, trará uma reforma agrária que atenda aos interesses
dos camponeses.
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