![]() |
Série Lutas Populares no Brasil (1924 - 1964)Coluna Prestes – Caderno 2 Apresentação |
Com esta publicação, apresentamos a 2º caderno da série Lutas Populares no Brasil, que documenta o debate realizado sobre a Coluna Prestes. Esse caderno é de particular importância já que o protagonista principal dessa luta – o Sr. Luis Carlos Prestes – foi o conferencista do debate. o público vibrou, e não perdeu um só momento de sua exposição. A coordenação do debate ficou a cargo de Benedito Ferraro, teólogo e coordenador da Comissão Arquidioscesana de CEB's. A Coluna Prestes percorreu o Brasil no período de 1924 a 1927, portanto, há 62 anos. Oriundo do Movimento Tenentista, a Coluna Prestes foi, na época, uma das mais importantes demonstrações de guerrilha no continente. A Coluna é um acontecimento singular. No mundo, não se conhece outra marcha dessa extensão. Desse tempo e dessa precariedade de armamento que foi a Coluna. Entre 1924 e 1927, de 800 a 1500 civis e militares percorreram os sertões do Brasil, agindo por onde passavam como uma espécie de governo revolucionário. Com este caderno, estamos ajudando a abrir para o nosso povo mais uma página de nossa história, pois durante mais de 50 anos, pesou um silêncio absoluto sobre a Coluna. Não podemos desperdiçar essa oportunidade de apropriação de nossa história. Leia, divulgue, pois em sua exposição Luis Carlos Prestes e o público, através das questões formuladas, ajudam a interpretar o país de nossos dias. A Equipe do CEDAP
Coluna PrestesApresentação É com imensa satisfação que nós queremos apresentar a vocês o conferencista dessa noite, que traz uma longa história não só perspectiva nos anos, mas, sobretudo, na perspectiva da intensidade das lutas que ele é protagonista em nosso país. A preocupação desse ciclo de debates é recuperar a memória das lutas populares, e é desse contexto que foi escolhido a Coluna Prestes. Vamos chamar o Luis Carlos Prestes e sua companheira Dona Maria Ribeiro, para que possam tomar assento aqui. Como dizíamos, a Coluna Prestes se insere dentro deste grande movimento de busca de libertação e espaço das lutas populares. Este movimento é fruto do Movimento Tenentista da década de 20, e nós temos grande satisfação de contar com um dos protagonistas dessa coluna, e, conseqüentemente, alguém que dá o testemunho real, concreto, participante. Apresentar Luis Carlos prestes é muito difícil; difícil exatamente porque deveríamos retomar 90 anos de história. Como dizia, não só pelo tempo, mas pelas lutas. O homem que marca a história política brasileira. Então, gostaria de relembrar, como ele mesmo costuma dizer em suas memórias, que a vida dele tem dois momentos: o primeiro momento como oficial do Exército, e tendo como ponto culminante a participação na Coluna Prestes; e o segundo momento, quando aos 36 anos ele liga sua vida ai Partido Comunista Brasileiro; Partido Comunista do Brasil, na época. Só depois, por problemas de repressão é que ele foi chamado de Partido Comunista Brasileiro. Em todo o caso, aos 36 anos, ele ingressa no Partido Comunista Brasileiro e fica dentro desse Partido até 1979, marcando uma grande presença no cenário político brasileiro. Ele esteve trabalhando também na União Soviética, no primeiro plano qüinqüenal logo após a revolução, portanto uma experiência de luta revolucionária. De 1971 a 1979, ele viveu na União Soviética, conseqüentemente, teve muitos ganhos, como ele mesmo afirma, nesta vivência, embora do ponto de vista pessoal, ele considere isto quase como um exílio, sugerido pelo próprio Partido. Desde 1980, ele rompe com o Partido Comunista Brasileiro e está, de certa forma, peregrinando pelo Brasil todo, ainda continuando, como grande revolucionário, a incentivar a todos quanto o ouvem para fazer uma mudança neste Brasil. É com muita satisfação que passamos a palavra, agora, ao Luis Carlos Prestes, agradecendo a sua presença conosco. Companheiros da mesa, companheiros e amigos, é para mim, motivo de imensa satisfação, falar a todos aqui presentes nesse grande auditório, sobre o que foi a chamada Coluna Prestes, a coluna que percorreu o Brasil no período de 1924 até 1927, portanto a mais de 60 anos atrás (62 anos atrás). Naturalmente, vocês compreenderão que eu farei uma síntese, resumirei o mais que eu puder para que todos possam compreender. Nos anos de 21, 22, acentuou-se profundamente em nosso país a crise econômica da 1ª Guerra Mundial. A 1ª Guerra Mundial, realizou-se de 1914 a 1918, mas foi justamente nesse anos de 21 e 22 que a crise econômica decorrente da própria guerra, a crise do pós-guerra, podemos dizer, se acentuou no Brasil, Uma inflação relativamente elevada, encarecimento do custo de vida, um descontentamento popular muito grande avassalou o Brasil inteiro. A jovem oficialidade, ( por isso tem o nome de tenentismo), que havia saído da escola militar nos anos 17, 18 ,19; freqüentou escola examinando a nova técnica adotada na guerra, porque a 1ª Guerra Mundial trouxe profundas modificações na técnica militar. Na 1ª Guerra Mundial surgiu o tanque, a metralhadora pesada, o avião. eram eventos novos da técnica militar, a ao mesmo tempo, estudávamos a situação nacional, desde a Campanha Civilista de 1909, na luta de Rui Barbosa e Hermes Fonseca. Depois do governo Hermes, o governo de Wenceslau, a crise se acentuando cada vez mais no Brasil até eclodir; essa crise a que me refiro é a de 21 e 22, e essa oficialidade já se manifestava abertamente contra a Velha República que era marcada pela fraude eleitoral, tanto no interior do país como nas cidades. No interior do país, os fazendeiros, muito antes da eleição, aproveitam aos domingos, na hora da missa, para que viessem assinar o livro das eleições; daí que nos dias das eleições, a eleição já estava feita. No interior era assim e nas cidades o voto era aberto, não havia voto secreto. A influência, portanto, da campanha junto às urnas era muito grande e qualquer um votava com qualquer documento; uma pessoa podia votar duas ou três vezes, era só conseguir documentos necessários para mudar de nome ou ter outro nome. A apuração era também feita com muitos prejuízos para os verdadeiros eleitos. Além das apurações feitas nas mesas eleitorais, quando se tratava de eleições de deputados estaduais ou federais, a Câmara modificava tudo depois. Aqueles que haviam sido derrotados passavam a eleitos e os eleitos a derrotados; não havia nenhuma seriedade, nenhuma garantia; era a fraude eleitoral que dominava, ódio e descontentamento diante desta situação. Os oficiais que terminaram os cursos da Escola Militar compreenderam, estudaram a nova técnica militar. Chegavam nos quartéis, sofriam uma grande decepção, porque não havia nenhum elemento dessa nova técnica, só havia o fuzil Málzea 1908; era a única arma. Nem o fuzil metralhadora e a metralhadora pesada, muito menos. Era uma grande decepção para a jovem oficialidade, que esperava encontrar técnica moderna para poder instruir os seus soldados. Sofriam muito com isso. No ano 22, coincidiu esse movimento que foi se arrumando pouco a pouco nessa jovem oficialidade com a campanha presidencial. No ano de 22, em março, iria ser eleito o sucessor de Epitácio Pessoa, Presidente da República, na época. Anteriormente, os partidos políticos estavam agrupados em dois blocos. Isso tinha se dado já em 1909, a chamada Campanha Civilista de Rui Barbosa contra Hermes Fonseca; depois, uma outra campanha, mais ou menos do mesmo sentido na eleição de Epitácio de 1918. Em 22, formou-se também o bloco do governo, eram os aprtidos que estavam com o governo que se reuniam em torno do candidato escolhido pelo governo, era o Sr. Washington Luís, naquela época, não Epitácio Pessoa. Naquela época, a oposição também levantava a sua candidatura, de oposição a candidatura de Artur Bernardes, que era o Sr. Nilo Peçanha que era senador, deputado lá do Estado do Rio. A paixão política aguçou rapidamente, mesmo entre os militares. Os militares de maior patente apoiavam o candidato do governo e a jovem oficialidade ficava contra o candidato do governo, pelo candidato da oposição. A paixão já era bastante forte e houve um acidente que foi de conseqüências importantes. O Correio da Manhã era o jornal mais lido no Rio de Janeiro; Sr. Edmundo Bittencourt informou que encontrou uma pasta de cartas governamentais; nessas cartas, ele insultava o Exército. O Correio da Manhã publicou isso, e o Exército, então, exigiu esclarecimento, se essas cartas eram verdadeiras ou não. Bernardes negava; dizia que as cartas não eram dele, mas o Clube Militar se reuniu para decidir sobre o assunto, e resolveu mandar fazer uma perícia com peritos estrangeiros sobre a veracidade ou não da letra de Artur Bernardes. Chegou a conclusão que as cartas eram verdadeiras, apesar de que Bernardes negava que fossem verdadeiras. Isso aguçou muito a luta política. Eu era oficial do Exército, mas de uma família pobre; era tenente também. Desde que fui promovido de aspirante para oficial, eu passei a sócio também do Clube Militar, mas não freq6uantava as reuniões do Clube, porque eram reuniões festivas e eu tinha 4 irmãs e elas não tinham nem vestidos, etc para ir a essas festas; então, eu não freqüentava o Clube Militar.Mas quando eu li nos jornais que era para discutir estes problemas, então daí, o meu dever de ir ao Clube Militar e participar da discussão; se vai fazer perícia ou não, e a minha opinião era contrária a da maioria; a maioria queria fazer perícia e eu achava que não vali a pena aguçar o assunto. Se o Bernardes negava era porque ele não sustentava aquilo que estava escrito lá nas cartas; então, não valia a pena passar recibo para depois acabar não fazendo nada, porque eu não confiava absolutamente nisso que dizem que é muito importante, que há solidariedade entre os militares; não existe solidariedade entre os militares, porque há carreirismo entre militares, cada qual quer ser promovido, passar a perna nos outros, passar à frente, essa que é a realidade, e a minha mãe era uma mulher muito inteligente, ela também me ensinava isso, porque meu pai morreu quando eu tinha 10 anos apenas e foi ela que me educou. Ela mostrava que essa solidariedade nunca existiu; daí que eu fui no Clube Militar para votar contra a perícia, mas foram lá mais de 800 oficiais e votaram contra somente uns 40 e os outros 800 restantes votaram a favor da perícia. Nesta época que eu tinha trabalhado na Companhia Ferroviária do Rio de Janeiro, já tinha sido escolhido para ser o instrutor, auxiliar de instrutor e depois instrutor na Escola Militar de Realengo. Daí, que no dia seguinte, quando eu cheguei na Escola Militar, a paixão política já era tão aguda, que os meus colegas davam-me as costas só porque eu tinha votado contra a perícia. Foi um amigo pessoal que me disse: "Os companheiros estão indignados porque você votou contra." Eu disse: "Eu votei contra porque vocês vão passar em cima; vão ver que a carta é verdadeira e não vão fazer nada, eu quero ver o que vão fazer." E realmente foi o que aconteceu. Depois que os peritos disseram que as cartas era do Bernardes, os militares se reuniram, e qual foi a decisão que tomaram?! Entregar o caso ao julgamento da nação. Pelo menos pra dizer que não fizeram coisa nenhuma; ao mesmo tempo já começava a arma que os militares tem para lutar pelos seus objetivos, que é a conspiração militar. Começou a ser conspirado, e os oficiais do Exército são geralmente elementos da camada média, da pequena burguesia. Mas nem que haja muitas tendências políticas, cada um tem a sua tendência. E, na verdade, falam demais. Essas conspirações... eles diziam que era uma conspiração, uma casa reservada, tomavam cuidado... mas depois que saíam da reunião, todo mundo falava, então acontecia que a polícia sabia mais que os conspiradores, às vezes, essa que era a realidade. Até que no dia 5 de julho de 22, eclodiu o 1º Levante Militar dos Tenentes. No Rio de Janeiro, apenas aqueles que estavam comprometidos não fizeram nada. Levantou-se apenas o Forte de Copacabana e a Escola Militar de Realengo, que os cadetes estavam loucos para fazer um levante, não tinham nenhum caráter político; eles queriam era botara abaixo o comandante; eles eram contra o comandante, que estava pondo disciplina na Escola Militar, foram eles que se levantaram. Os cadetes forma expulsos; 800 e tantos foram expulsos, mas em Copacabana, deu-se um acontecimento particular: ficaram depois que o comandante da Fortaleza foi parlamentar com o governo e foi preso pelo capitão filho do Marechal Hermes; os outros oficiais quase todos se retiraram e a tropa também; ficaram mais 18 pessoas na Fortaleza e eles resolveram não se entregar; a Fortaleza foi cercada por mais de 3000 homens do Exército e outros 18 homens (alguns dizem que foram 20, 20 e tantos. Isso é secundário, um número pequeno.), 4 oficiais, que os nomes são conhecidos: Antônio Siqueira Campos, que foi a cabeça dessa idéia; Eduardo Gomes, que depois foi brigadeiro da Aeronáutica; um tenente de infantaria e um tenente de questão de economia dos quartéis. Bem, desses 4 oficiais, 2 morreram imediatamente; os outros forma feridos, e esses 18 homens caíram todos, ou mortos ou feridos. Eles marcharam contra 3000 homens que estavam cercando a Fortaleza. Esse acontecimento teve uma repercussão muito grande, nacional e dentro das próprias Forças Armadas. De maneira que a conspiração continuou. Bernardes chegou ao poder no dia 15 de novembro de 22; assumiu a Presidência da República e, realmente a conspiração foi deslocada para São Paulo, onde havia número de unidades de Exército e da Polícia Militar que realmente participaram da conspiração. E 2 anos depois da mesma data, em 5 de julho de 24, houve a chamada Revolução de São Paulo. Foram as unidades do Exército que se levantaram sob a direção do Marechal Isidoro Dias Lopes e tomaram conta da cidade. O governador fugiu, eles ficaram os senhores da cidade, mas foram cercados logo em seguida por tropa muito superior. Eles eram 5000 ou 6000 homens levantes da unidade do Exército e unidades da Polícia Militar cercados por cerca de 15000 homens, e o pior é que bombardeavam a cidade à noite, e bombardeavam particularmente bairros operários. Então, o Marechal Isidoro achou que era melhor se retirar de São Paulo para evitar a mortalidade entre a classe operária, dos bairros operários de São Paulo. Dali depois de 20 dias, (o movimento começou no dia 5 de julho), no dia 27 de julho, retiraram de São Paulo. Retiraram em ordem, através da Paulista, depois da Sorocabana, da Noroeste foram bater no Rio Paraná. Em Porto Epitácio, cerca de 3000 homens foram bater lá. Tentaram marchar para o Mato Grosso, mas estava difícil, então foram para o sul e ocuparam Guaíra, e depois, um quadrilátero no Paraná e aí se fixaram. Fizeram uma fortaleza lá, uma trincheira forte, chamada Catanduvas, no caminho para Curitiba, e diversas trincheiras na Serra de Medeiros também, e aí ficaram durante 6 meses. Desde setembro de 24 até abril de 25, resistindo às forças do Exército comandadas pelo Marechal Rondon, que foi quem comandou as forças do Exército contra essa força. Fixaram-se aí no Paraná, gastando munição, não tentando nenhuma saída. Eu, pessoalmente, estava no Rio Grande do Sul, que depois do acontecimento de 22, não fui preso de armas na mão, porque estava doente, não participei, mas sabiam que eu conspirava, então, me transferiram para o Rio Grande do Sul, para fiscalizar a construção de quartéis. Depois, fui para um batalhão ferroviário como oficial de engenharia que eu era. Tinha ligação com os conspiradores de São Paulo, mas não fui avisado, quero dizer, não nos avisaram do levante de São Paulo; fomos surpreendidos; então, intensificamos a conspiração no Rio Grande do Sul para dar a nossa solidariedade aos meus companheiros de São Paulo que já estavam no Paraná. Mas a conspiração no Rio Grande era muito difícil, porque as unidades do Exército são muito distantes umas das outras. Em geral, 100 km ou mais de 100km de Santo Ângelo ao Ferroviário, ao 3º Regimento de Cavalaria de São Borja, um outro que estava em Uruguaiana; mas depois de alguns meses, na noite de 28 para 29 de outubro, nos levantamos no rio Grande e lutamos logo de início para uma unidade de artilharia. Itagui, que não aderiu para ver se era possível fazer, ela aderiu. Houveram diversos erros, muito oportunismo, mas sobraram ainda os 1500 homens. E o general João Francisco Pereira de Souza, que é um velho revolucionário gaúcho, que era muito acusado de violências, etc, mas que morava em São Paulo e participou do movimento de24, veio até o Paraná e foi designado pelo Marechal Isidoro pra vir a São Borja, onde ele conversou comigo e me nomeou coronel comandante das tropas do noroeste do Rio Grande do Sul. Eu era capitão do Exército, fui nomeado coronel para comandar essas tropas. As tropas que estavam em Uruguaiana e no sul do estado, em 15 dias foram derrotadas, foram liquidadas pelo governo de Borges de Medeiros. E eu fiquei com essa região de noroeste do estado, zona chamada missionera, em cima da serra; eram 1500 homens, mas quando eu fui armar essa gente, eu só tinha arma para 700, armas longas, que eram fuzis Málzea, eram a única arma, e alguns fuzis metralhadora do Regimento de Cavalaria do 3º Regimento de São Luís Gonzaga. Não tínhamos uma metralhadora pesada. Precariamente armados e quase sem munição, solicitamos ao Marechal Luís Isidoro que lá do Paraná eles nos mandassem, porque quando eles se retiraram de São Paulo, eles levaram bastante armamento e bastante munição, mas a munição para chegar ao Rio Grande do Sul, precisava passar pelo território argentino. Por mais que comprássemos guardas aduaneiros, quando chegou na hora de passar munição, os guardas não deixaram passar. Eu fiquei 2 meses nessa região, e o governo, depois de ter esmagado a tropa do sul, recebeu reforço do Governo Federal, até o Batalhão Naval, Polícia da Bahia, forças do Exército vieram para essa região. Não sei o que eles imaginavam que nós tivéssemos, porque nós não tínhamos grande força, 1500 homens, só 700 tinham fuzil, não tínhamos uma metralhadora pesada, mas eles exageravam e cercaram 7 colunas, cada uma delas era mais forte de que a nossa, de mais de 2000 homens, 2500 homens. Nós tínhamos somente 700, mal armados. E resolveram, no entanto, fazer um sítio, quer dizer, uma marcha concêntrica em torno da cidade de São Luís Gonzaga, que eles supunham que era o meu posto de comando. A mania do sítio e de querer dominar pela fome ou pelo cerco. Quando eu percebi isto, eu disse: "Vamos deixar que eles cheguem bem perto." Porque toda a minha coluna estava na periferia, defendendo as diversas estradas. Era interessante, porque os espiões deles entravam na região aberta do campo; essa zona noroeste do Rio Grande do Sul é campina, criação de gado, não tem quase floresta. Os espiões deles entravam e andavam à procura; onde é que estava o grosso da coluna, mas não encontravam, porque a coluna não tinha grosso, a coluna estava na periferia toda cobrindo as diversas estradas. Ficavam meio tontos por isso, porque não cumpriam a tarefa deles de espiões. Fomos recuando pouco a pouco. Quando eles chegaram a 60 km de São Miguel, um povoado ao sul de São Luís Gonzaga, eu reuni todas as minhas guardas ao entardecer e logo que escureceu, fiz uma marcha e passei entre 2 colunas deles. Eles estavam tão preocupados pelo objetivo geográfico, que era a cidade de São Luís, que não tinham nem guardas de frâncula. Eu pensei que ia passar ali lutando, mas não. Passamos sem encontrar inimigos; saímos do sítio. No dia seguinte, já estávamos há cerca de 100 km, porque a tropa estava bem montada, a região tem muito cavalo, cada soldado tinha 2 cavalos, era uma coluna grande 3000 cavalos e 1500 homens. Fomos até um riacho em Juizinho, que tem um leito muito profundo, e aí, abaixo nesse leito, eu escondi a coluna enquanto a coluna do inimigo estava passando na divisa das águas, a principal delas, que era comandada pelo comandante da polícia gaúcha, o coronel Claudino Nunes Pereira. Essa era mais forte, tinha 2500 homens, mas eles estavam marchando para São Luís, e nós estávamos marchando para o outro lado. Eles tinham tantas tropas, tinham até tropa de reserva. Num raio de 40 km de distância, no dia 29 de outubro, nós atacamos essa tropa de reserva de surpresa; matamos o comandante dela. Era uma figura importante de Borges de Medeiros, que havia sido prefeito de Santa Maria, e continuamos a marcha para o norte. No dia 03 de janeiro, às 8 horas da manhã, a artilharia bateu no nosso acampamento. Era uma tropa do governo que, na última hora, eles prepararam para ver se impediam a nossa marcha para o norte, porque eles compreenderam que nós estávamos marchando para levar nossa solidariedade aos companheiros de São Paulo que estavam lá no Paraná. o combate foi desde às 8 horas da manhã até às 4 horas da tarde. às 4 horas da tarde, nós já estávamos quase tomando os cantões deles, quando eles bateram em retirada e abriram caminho. Nós fomos para o norte – a coluna militar do Alto do Uruguai. Aí, atravessamos o Rio Uruguai, entramos em Santa Catarina, numa estrada completamente deserta e chegamos à fronteira de Santa Catarina e Paraná. Tentamos, ainda, uma saída. Aí é uma zona de mato cerrado; nós procuramos sair pelo campo pra ver se atacávamos o general Rondon pela retaguarda, mas quando chegamos na orla da mata, elemento do Borges de Medeiros estava lá com uma tropa muito superior a nossa, com muito mais munição; fizemos uma retirada de emboscada. Não tivemos ferido e conseguimos marchar para o norte. Atravessamos, portanto, o Rio Uruguai, que tem 500m de largura, depois fomos atravessar em canoas e depois atravessamos o Rio Iguaçu, que tem 700m; tivemos até que fabricar canoa, 2 canoas para poder atravessar o rio. Início de abril de 25, estávamos entrando já no Paraná, mas, neste momento, justamente a fortaleza principal dos revolucionários de São Paulo integrou-se ao general Rondon. Acabou a munição, eles tinham gastado toda a munição, então, entregaram-se ao Rondon. A oficialidade de São Paulo, na sua maioria, queria ir embora para a Argentina, mas é claro que eu não podia convidar os meus soldados para ir para a Argentina, quando eles sabiam que ter chegado lá, ter feito aquela marcha de 1200 km até o Paraná era uma vitória. Nós estávamos triunfantes; como é que agora iríamos convidar os soldados para irem para um exílio na Argentina. Não me entreguei; fui contra, e o que sobrou da tropa de São Paulo, nós formamos uma brigada sob o comando do coronel Juarez Távola, e com a minha brigada, que era a brigada do sul, formamos uma divisão, sob o comando do coronel Miguel Costa, que era oficial da polícia de São Paulo, quinze anos mais velho que nós. A oficialidade do Exército era toda mais ou menos de 26 anos e o Miguel tinha 41 anos. Nós demos a ele a honra de comandar a coluna. Atravessamos o Rio Paraná; entramos no Paraguai armados; percorremos 150 km no Paraguai; em 3 de maio, nós entrávamos no Mato Grosso. Nessa época, desmoralizou-se muito o general Rondon, porque ele comunicara numa mensagem ao Bernardes que a coluna estava completamente liquidada, porque nós estávamos completamente engarrafados; é a expressão que ele inventou. Não tínhamos saída. Ele considerava que o Rio Paraná era intransponível. Para um guerrilheiro não há rio intransponível. Foi o que nós fizemos. Conseguimos atravessar o Paraná e entramos no Paraguai. Mas, naquele dia 3 de maio, era o dia em que o Presidente da República mandava para o Congresso a sua mensagem anual e nessa mensagem, o Bernardes transcrevia este trecho do relatório do Rondon de que nós estávamos engarrafados, e neste mesmo dia, já estava recebendo a notícia de que nós estávamos no sul de Mato Grosso. Isso desmoralizou completamente o general Rondon, e assim, aconteceu com outros generais. Nós podíamos afirmar, sem contestação de ninguém, que nós derrotamos 18 generais, que a tarefa deles era liquidar a coluna e, em 2 anos e tanto, com tropas sempre muito superiores a nossa, não conseguiram liquidar a Coluna. Iniciamos a marcha com o objetivo de atrair tropas sobre nós com a presença de que nossos amigos, nossos companheiros no Rio de Janeiro, tendo menos tropas lá no Rio de Janeiro, pudessem botar o Bernardes abaixo, quer dizer, fazer um golpe contra o Bernardes. O objetivo principal da Coluna era ir contra o Presidente Bernardes; era natural que tínhamos uma plataforma política. O Dr. Assis Brasil, que era considerado chefe civil da revolução, formulava esta plataforma como a justiça e a liberdade, era assim que ele dizia. As reivindicações eram muito singulares, muito pequenas: pelo voto secreto, para acabar com o voto aberto e pelo voto para as mulheres; enfim, a liberdade de imprensa, contra qualquer lei de censura; essas algumas reivindicações do programa em que a Coluna marchou através do Brasil. Atravessamos todo o estado de Mato Grosso, de sul a norte; depois, entramos em Goiás, desde o início até o fim do norte de Goiás; de lá, entramos no Maranhão, Piauí, percorremos o Nordeste e entramos na Bahia e viemos até o norte de Minas. Esta marcha, para mim particularmente, foi de uma importância muito grande, porque eu pude conhecer melhor a situação terrível em que vive o nosso povo do interior, trabalhador do campo do Brasil. Eu via homens ajoelhados no chão e perguntava o que estavam fazendo; estavam lavrando a terra, com um pedacinho de ferro, com uma faca de mês, essas com cabo de madeira, sem o cabo; ele pegava na lâmina e com o lugar do cabo é que ele estava cutucando a terra para plantar o milho e o feijão. Eu perguntava se ele não tinha enxada, ele sorria e me olhava dizendo que há muito tempo ele não via um anota de mil réis. Isso se repetiu em Mato grosso, Goiás, todo o Nordeste, Bahia, até o norte de Minas, onde nós fomos. Era um quadro lamentável; eu sentia particularmente, por que isso? Qual é a causa desse paradoxo? Esse Brasil imenso e esse povo não têm um palmo de terra; 80% eram trabalhadores do campo, não têm terra. A terra está toda monopolizada nas mãos de fazendeiros, que exploram 10% e os outros 90% estão abandonados, completamente abandonados, e esperando que valorizem com a abertura de estradas, construção de linhas telegráficas, telefônicas, enfim, é um contra-senso. Acabar com esse monopólio no Brasil é indispensável para o progresso nacional, para poder dar terra a essa massa; 80% dos trabalhadores do campo não têm um palmo de terra. Há poucos dias, quando houve este debate entre os presidenciáveis, não houve um só que falasse nisso. O Sr. Caiado fez toda uma história, defendendo a propriedade dos latifundiários, defendendo essa nova constituição, que, na verdade, ela proíbe qualquer reforma agrária, porque diz que nenhuma terra produtiva pode ser desapropriada; então, vamos desapropriar terra improdutiva para dar a quem? Quem é que quer receber terra improdutiva? É um absurdo, mas não houve nenhum que se levantasse. Não se trata de terra produtiva ou não, se trata de acabar com o monopólio de terra na mão de 400 fazendeiros que tem toda a terra do Brasil nas mãos deles. Isso é um contra-senso, enquanto o povo está passando fome, não tem um palmo de terra, não houve um que levantasse esse problema. É este o problema decisivo. Isso me alarmou muito e eu, formado numa escola militar, não tinha nenhuma noção de sociologia, de economia política e não tinha uma explicação para isso. Estávamos diante do problema e qual é a causa disso? Porque nesse país imenso, isso se dá? Estávamos ansiosos para ver qual é a causa e estudar alguma coisa, estudar uma ciência que nos explicasse o motivo desse contra-senso. Já tínhamos marchado durante 2 anos e pouco, já estávamos em janeiro, fevereiro do ano de 27; tínhamos começado em 24; atravessamos 13 estados do Brasil, percorremos 25 mil km, na extensão de toda a marcha; a ida, depois, voltamos procurando a fronteira da Bolívia e acabamos a luta porque quisemos, ninguém nos forçou a isso. Nenhum dos generais conseguiu nos obrigar. Tivemos um combate e derrotamos o inimigo, que era uma tropa dessa de fazendeiro. O Sr. Franklin de Albuquerque, lá da Bahia, porque Artur Bernardes, além do Exército de policiais militares, ainda armou os fazendeiros. Dava dinheiro e armamento para que eles, Horácio de Matos, Franklin de Albuquerque, Geraldo Rocha, todos esses receberam dinheiro para organizar tropas contra nós. Estas eram 10, 20 vezes superiores às nossas. Quando entramos em Pernambuco, na zona da mata de Pernambuco, concentraram 20000 homens contra a nossa coluna de 1000 e poucos homens com armamento pra metade apenas. Eles estavam armados; no entanto, nós nos libertamos da pressão deles, apesar dos obstáculos geográficos que se encontravam de vez em quando, porque nós tínhamos atravessado o rio Pageú, a pé, porque estava seco; a lage do rio estava à vista; jogamos uma tropa de cavalaria em relação à Recife, porque quando tínhamos passado em Teresina, perto da capital do Piauí, recebi uma primeira delegação dos comunistas de Pernambuco. Era um advogado jovem, Josias Leão, ex-sargento do Exército. Traziam uma proposta do companheiro Cristiano Cordeiro, que era dirigente comunista de Pernambuco, dizendo que o tenente Cleto Campelo, que era da unidade do Exército do 21º Batalhão, ia se levantar e que a classe operária ia apoiar, e mandava a relação das reivindicações dos trabalhadores. Quanto a isso, nós estávamos de acordo; nós concordamos e prometemos que na 1ª quinzena de fevereiro, nós estaríamos lá perto de Recife, o mais perto possível; o meu grupo, à cavalo, bem montado, eu joguei em direção ao Recife, depois que atravessamos o Rio Pageú. Quando essa tropa chegou numa cidade a 300 km de Recife, já soube que o Cleto Campelo tinha se levantado e já tinha sido assassinado; não valia a pena. então, voltamos e o inimigo estava com 20000 homens contra nós, justificando a nossa retaguarda, os nossos flancos Tentamos atravessar o Pageú de novo para ir para a zona do Sertão, mas quando quisemos fazer isso o Pageú estava cheio; chovia nas cabeceiras e a correnteza do rio (...) de tal forma que os melhores nadadores não tinham força para atravessar o rio; pra estender um cabo, para os outros poderem atravessar o rio. Esperamos 24 horas, mas o rio, em vez de baixar, subia; continuando chovendo nas cabeceiras; aqueles rios do Nordeste são assim. Resolvemos tomar outra direção. Tínhamos feito alguns prisioneiros, uns contatos do governo, e eles diziam que o Rio São Francisco estava livre, porque os comandantes diziam que o Rio São Francisco era tão largo, que era uma barreira intransponível. Já que eles diziam que era intransponível, nós vamos atravessar o Rio São Francisco. Realmente, nós tomamos direção de Jatobá, hoje chama-se Petrolândia, acima da cachoeira; ali, o rio tem 3 km de largura.As barcaças que atravessam o rio estavam todas na Bahia, mas os nossos nadadores atravessaram o rio, trouxeram uma barcaça e, rapidamente, nós atravessamos e passamos para a Bahia. Já estávamos na Bahia há 2 dias, quando uma tropa que nos perseguia chegou do lado de Pernambuco; de maneira que daí em diante, entramos na Bahia, e, na Bahia, entramos sem defesa quase. Tivemos numerosos combates de retaguarda, de flancos; tivemos muitos prejuízos; morreu muita gente. A marcha da Coluna está assinalada pelos túmulos dos companheiros que morreram nesse caminho. A grande virtude da Coluna era que todos os dias saiam pequenos grupos armados para pegar cavalos e, ao mesmo tempo, traziam moradores, conhecedores da região e informavam sobre os inimigos. Esses grupos saiam e iam até 100, 150 km da Coluna para o lado direito, para o lado esquerdo. Eram os potreadores. A palavra potro é a palavra gaúcha do cavalo jovem, então eles iam pegar cavalos. traziam cavalos e traziam moradores, conhecedores da região, para que eu pudesse fazer o mapa. Iniciamos a marcha. Em vez de 2 brigadas, organizamos 4 destacamentos e eu passei a ser Chefe do Estado Maior da Coluna. Eu que decidia sobre a tática toda a adotar, consultando sempre o general Miguel Costa. Tivemos muitos combates, mas nunca fomos propriamente derrotados. Se o combate era infeliz, nós tínhamos uma saída, sempre calculada e já preparada. Sempre continuou a Coluna. Depois, voltou pela Bahia, entrou em Pernambuco, Piauí, Goiás, e aí, tomamos a direção da fronteira da Bolívia. Já tínhamos feito 25000 km através do país, quer dizer, isso foi a marcha da Coluna. Quais foram as conseqüências dessa marcha? Primeiro, conhecer o homem brasileiro; esse homem do interior, analfabeto, atrasado e, no entanto, de uma inteligência e de uma vivacidade formidáveis. Esses homens entrava para a Coluna e em 10, 15 dias, eles eram capazes de aplicar nossa tática de guerrilha. Conheciam a maneira de fazer isso; fazer parar um coronel comandando um regimento. A Coluna marchava numa direção; vinha uma coluna do Exército, às vezes, com 2000 homens, comandados por um coronel do Exército, e um grupo desses bem montados, tiroteavam vanguarda; tiroteavam flancos, tiroteavam outros. Eles já pensavam que era a Coluna e com as instruções da missão militar francesa, muito defensivas, as primeiras coisas que eles faziam era parar e abrir a trincheira. Abrir trincheira, explorar o terreno; enquanto isso, a Coluna estava passando no nariz deles e eles, que eram encarregados de liquidar a Coluna, não liquidavam. Depois, ficavam para trás. Além disso, nossa velocidade de marcha era superior a deles. Um exército regular não faz mais de 24 km por dia; já uma marcha de 30, 35 era uma marcha batida; é uma marcha difícil de fazer. Nós, se fosse necessário, fazíamos 60 km por dia, dias seguidos. Quando nós avançávamos para atravessar o Rio São Francisco, nós fizemos 60 km num dia; 70, no outro, para alcançar a margem do Rio São Francisco. Isso para atravessar com folga, antes que o inimigo chegasse. Nossa velocidade de marcha era excepcional; eles não tinham condição de nos acompanhar numa marcha dessa natureza. O homem brasileiro é capaz disso. Ao mesmo tempo em que nós tínhamos uma tragédia muito grande, que é que o cavalo cansa muito mais facilmente que o homem, de maneira que cansava o cavalo, tinha que botar fora o arreio. Depois, quando pegávamos o cavalo não tinha arreio; tinha que botar um pano em cima do cavalo para montar. Essas eram dificuldades muito grandes; muitas vezes, marchamos a pé dias seguidos, em infantaria mesmo; outras vezes, a parte que havia cavalos fazia a marcha montada mesmo. Foi isso que foi a Coluna. O que se ressaltou mais foi o valor ao nosso homem do interior; essa inteligência aberta, fácil. O homem analfabeto que rapidamente assimilava o nosso método de direção. Já havia isso sido comprovado durante a Guerra Mundial, quando os soldados americanos estiveram nos portos de Salvador, Recife, Natal. Eles pegavam, às vezes, a namorada do brasileiro, brigavam com o brasileiro e o brasileiro era muito mais rápido em puxar a peixeira do que o americano conseguir carregar o fuzil-metralhadora dele. Verificamos essas qualidades do nosso povo que está abandonado, analfabeto, atrasado, mas tem virtudes formidáveis, capacidades fantásticas e uma alimentação muito precária; alimentando-se do que ele encontra pelo caminho, e vai vivendo, porque a alimentação do povo do interior é bastante precária. Tem alguma plantação, milho, etc que ainda resolve alguma coisa, mas a verdade é que a miséria é cada vez maior. Quando nós chegamos no norte de Goiás, os moradores nos perguntavam se estávamos lutando pela volta do imperador, e nós perguntávamos porque eles se lembravam do imperador. "O que é que houve de bom que vocês estão pensando que é a volta do imperador?" Eles respondiam: "Porque, naquela época, nós comprávamos o algodãozinho inglês, a chita que vinha da Inglaterra, relativamente barato. Depois, vem a república, vem a proteção aduaneira, vem a indústria nacional protegida e os preços dos tecidos estão lá em cima." Nosso povo vive nu, é verdade. Há uma dificuldade tremenda, roupa toda rasgada, suja, porque não podem comprar tecidos no interior do país. Os tecidos estão cada vez mais caros e o dinheiro não corre, porque o homem do campo não recebe o dinheiro. Diziam, quando eu perguntava, que há muito tempo não viam uma nota de 100 réis, a unidade monetária na época. Nesse meio, o homem não vê dinheiro. No Maranhão, eu encontrei grupos de famílias negras que tinham participado da Balaiada, que foi uma revolta dos negros. Uma grande parte de negros fugiram; quando Duque de Caxias chegou lá para puni-los, eles fugiram para o interior, organizaram uns grupos familiares; eles mesmos fiavam o algodão e cortavam a roupa. Faziam umas camisolas de algodão alvejado para as mulheres e uma gandóla e uma calça meio-canela para homens. Isto era a roupa deles; feita com tecidos feitos por eles mesmos, porque não podiam comprar o tecido pelo preço que o tecido chega no interior do país; e o preço é cada vez mais alto, com essa inflação que continua no Brasil. O que nós compreendemos e o que a Coluna mostrou é um acontecimento singular. No mundo não se conhece outra marcha dessa extensão, desse tempo e dessa precariedade de armamento, porque nós estávamos quase desarmados, sem munição, muito pouca munição. De maneira que essa realidade é digna de estudo. Durante esses últimos 50 anos, pesou um silêncio absoluto sobre a Coluna; não se podia dizer nada; nem um autor de história do Brasil não dizia uma palavra, porque mais adiante eu entrei para o Partido Comunista e, como a Coluna ficou com o meu nome... ficou com o meu nome, porque eu marchava com a Coluna... sou um bom andarilho, tenho um passo maior que o passo normal. O passo normal de um soldado tem 65cm; eu tenho um passo de 84 com. De maneira que eu organizava bem a retaguarda; deixava a Coluna marchar, depois eu falava com toda a Coluna; atravessava toda ela; alcançava a guarda. Eu conhecia cada soldado pelo nome, pelo apelido; e aí, as queixas, todas as reclamações vinham para cima de mim e eu ia solucionando os problemas e mantendo essa ligação íntima com os soldados, que tinham uma confiança cega. Quando chegávamos a um povoado, qualquer pessoa que queria fazer uma reclamação, eles indicavam para falar com o coronel Prestes. Então, o meu nome ficou conhecido pelo interior, sendo que, de fato, o comandante era o coronel Miguel Costa, mas era a mim, que era Chefe do Estado Maior que os soldados indicavam. Por isso que ficou o meu nome com a Coluna; está consagrada, hoje, como Coluna Prestes; não se pode mais tirar isso. Foi uma decisão da história mesmo. Eram essas as palavras que eu tinha a dizer e me interesso muito em responder as perguntas que vocês tenham a me fazer. As objeções que quiserem apresentar... porque a Coluna não foi mais do que isso; o heroísmo do homem brasileiro, muito valente. Depois que entramos em Mato Grosso, os soldados tinham orgulho de participar da Coluna. Para eles, aquilo era uma coisa orgulhosa. Eram os homens que estavam dedicados de corpo e alma a continuar aquela marcha. Se eu mandasse que atacassem qualquer coisa, eles iam atacar mesmo. De maneira que havia realmente uma grande união. A dificuldade maior era alguns comandantes que eram homens, às vezes mais velhos, que haviam participado de uma luta de 93 e iam só no início da Coluna. Quando estivemos acampados no Rio Grande do Sul, esses fazendeiros, eles achavam que eles é que entendiam da tática e que eu não entendia; que eu era muito jovem, tinha uma cara ainda de menino... oficial de engenharia, não era nem oficial de infantaria, de cavalaria. Eles achavam que eu não entendia e quando eu precisava de um pequeno grupo, comandados por um desses fazendeiros e que tinha 50 ou 60 homens que se apresentavam numerosos... onze grupos desse se apresentaram na Coluna e o meu primeiro erro, porque eu tinha que mudar de pele... eu era oficial de carreira, tinha que transformar em guerrilheiro. A mentalidade de guerrilheiro é completamente diferente do oficial de carreira. Eu, por exemplo, quando organizei a Coluna, o coronel João Francisco me nomeou coronel e eu fui organizar a Coluna. Controlei Batalhão Ferroviário, 2º Regimento de Cavalaria, 3º... depois, tinha onze grupos pequenos de 40 homens; eu como militar, chamei aquilo de esquadrões que eram à cavalo; esquadrões independentes, 1º, 2º, 3º... tinha onze esquadrões desses. No dia seguinte, esses comandantes todos estavam de cara feia para mim. Um morador lá da localidade, que era amigo, me disse que era porque eles eram coronéis e eu chamava a unidade deles de esquadrão; eles comandavam regimentos. Mandei rasgar os boletins e fiz outros onze regimentos. É uma coisa elementar, mas essa transição de oficial de carreira para guerrilheiro não é fácil. Por exemplo, quando chegamos na beira do Rio Uruguai, eu achava que não devia ter mulheres na Coluna; porque ficamos dois meses ali no Rio Grande do Sul, muitas mulheres se aproximaram dos acampamentos, dos soldados e ajudavam muito; ajudavam na cozinha, tratar dos feridos, etc. Mas quando chegou na beira do Rio Uruguai, eu dei ordem à guarda: "Aqui não passa nenhuma mulher para Santa Catarina." Elas que voltem para casa, porque eu não quero mulheres, e ficou decidido isso e a guarda tinha que cumprir essa ordem. Eu participei da última viagem. Era uma lancha que levava para Santa Catarina. As mulheres estavam todas lá; tinham passado porque os soldados queriam. Aí, eu tive que me conformar e elas foram muito úteis durante a marcha. Foram úteis até em combates; ajudavam nos combates; cuidavam dos doentes, dos feridos e algumas entravam de arma na mão mesmo. Esse processo é que é um processo difícil; do oficial de carreira se transformar num guerrilheiro. Tem que saber adaptar, porque a guerrilha é uma guerra muito mais democrática; você já não pode tratar o soldado somente através da ordem; tem que consultá-lo, tem que ouvi-lo. Essa é a realidade, mas o nosso homem é muito disciplinado, é muito consciente; não tivemos necessidade de expulsar nenhum deles. Infelizmente, a minha vida é toda muito irregular. Entrei para o Partido Comunista. Eu não queria comprometer os antigos soldados da Coluna; os antigos oficiais com a minha ideologia, que eu adotei ideologia marxista, ideologia do proletariado. Minha vida é muito irregular; exílio muitos anos, clandestinidade anos seguidos – de 48 a 58, eu passei escondido no Rio de Janeiro e em São Paulo; depois, em 64, eu passei, no Rio de Janeiro, 7 anos clandestino; depois, o Partido é que me mandou para a União Soviética, onde passei 8 anos e meio do exílio. Essas questões todas me desligaram dos meus soldados e dos meus amigos na Coluna, dos oficiais; os principais comandantes, todos já morreram e a maior parte da soldadesca. Ainda há uns grupos lá no Rio Grande do Sul, no Nordeste. Em São Paulo, há um ou outro que foi da Coluna, ms eu estou praticamente desligado da maioria. Tenho correspondência com uns 3 ou 4. Não tenho mais nada do que isso, devido às conseqüências de irregularidade da minha vida. De maneira, companheiros, é o que eu podia dizer. Penso que já está bastante longo para vocês e eu espero que vocês intervenham e façam as perguntas que desejarem.
Bem, companheiros, as perguntas são próximas, mas são diferentes. Cada uma delas tem relações com o PC e a Aliança Nacional Libertadora. Durante a Coluna, a única relação que houve com o Partido foi essa delegação de comunistas de Pernambuco. Nós tínhamos chegado às trincheiras de Teresina. Por acaso, o governo colocou, quando nós entramos no Maranhão, 2600 homens no sul do Maranhão, na cidade de Benedito Leite, em frente ao Uruçui, no Piauí. Essa coluna, patrulhas nossas se chocaram; patrulha que veio deles procurando onde é que estava nossa Coluna e patrulha nossa investigava a situação. Como sabíamos que eram 2600 homens, bem armados, não nos interessou combater com eles. De maneira que desviamos, deixamos à direita a força e fomos pegar o Rio Parnaíba, para descê-lo. Houve um contato de patrulha, quando a patrulha chegou e disse que os comunistas, os revolucionários vinham aí. Nós éramos chamados "Os Revolucionários", "Os Rebeldes", e desde então, escureceu o dia, veio a noite e eles começaram a gastar munição inutilmente. À meia-noite acabou a munição deles; então, eles tomaram um vapor que tinha lá e desceram o rio, dizendo que tinha havido um grande combate. Não houve combate algum, porque nós não chegamos lá. Na cidade de Floriano, o comandante da coluna, que era o chefe da polícia do Piauí – um capitão do exército comissionado e coronel – passou um telegrama para o governador de estado descrevendo o combate. O combate que não houve; eram fantasmas, porque eles estavam gastando munição e gastaram toda até à meia-noite, depois seguiram. Nós exploramos isso, porque ali em Floriano, um jornal nosso... a Coluna, quando podia e quando ela encontrava gráfica, editava um número chamado "O Libertador", cujos primeiros números saíram também em São Paulo, nas cidades de Lins, nas cidades da Sorocabana e do Nordeste. Então, transcrevemos esses telegrama e cantamos vitória de um combate que, na verdade, não se realizou. E ele continuou marchando para Teresina e nós fomos atrás. Nós não tínhamos quase armamento nenhum e fomos trás deles; fomos bater nas primeiras trincheiras de Teresina. Quando chegamos nas primeiras trincheiras de Teresina, cada soldado nosso tinha dois tiros; não tinham munição quase; travamos ali combate do lado do Piauí. Aí mesmo, conseguimos alguma munição e depois, retiramos de Teresina e avançamos para o Ceará. Íamos para o Pernambuco, porque tínhamos nos comprometido que no princípio de fevereiro, nós estaríamos o mais próximo possível de Recife; foi essa a nossa posição naquela época. Foi esse o único contato que tivemos com o Partido. Mais tarde, o Partido, no seu 3º Congresso, já falava de fazer uma frente única com os tenentes, com o Movimento Tenentista. Mas ele nunca teve contato. Depois, já em 34, eu estava na União Soviética, quando fui aceito membro do Partido Classe Operária. Em 1º de agosto, publicava minha adesão, que eu tinha entrado para o Partido. Foi ali que eu passei a ser comunista, em 1º de agosto de 1934. Mais tardem eu estava na prisão, em 43, quando fui eleito secretário geral do Partido. Já me referi a isso na palestra que eu fiz inicialmente aqui, mas não estava preparado suficientemente. Depois, fui à União Soviética, e lá, pude estudar melhor isso.
Não, não houve absolutamente generais que nos perseguiram que conseguiram nos derrotar. Tentaram; era esse o objetivo deles, mas, na verdade, não conseguiram isso. Nós resolvemos terminar a marcha por vontade própria. Achamos que a guerra civil é prejudicial ao povo mais pobre, ao que mais sofria, e se nós zelávamos para não causar prejuízo... as tropas que nos perseguiram cometiam desatinos, tanto do Exército como dos policiais militares, como dos fazendeiros, contra o povo mais pobre, que sofreu a conseqüência dessas tropas, que tentavam contra a população pobre. Foi por isso que nós resolvemos terminar mesmo a marcha da Coluna.
Eu confesso que não sei sobre a alcunha do Cavaleiro da Esperança. O que se informa é que foi Marechal Isidoro Dias Lopes que lançou essa alcunha e o Jorge Amado, depois, explorou no seu livro, que ele escreveu na Argentina, em 1942, e os primeiros exemplares foram editados em espanhol e falava o livro sobre o Cavaleiro da Esperança (...) O segundo fato que a revolução de 64 convidou para deixar a sua ideologia; promover o marechal, não tinha nada disso. Eles queriam é me liquidar, se eu não me escondesse, eu estava frito. De maneira que o objetivo deles era anticomunista; os generais de 64 tinham verdadeiro ódio do Comunismo. Eles fizeram todas as medidas que puderam tomar contra nós. Eu, durante 7 anos, fiquei escondido no Rio de Janeiro ou em São Paulo, mas na rigorosa clandestinidade. Só saía durante a noite, e mesmo assim era perigoso, para ir às reuniões do secretariado da Comissão Executiva do Comitê Central. Era mais fácil sair à noite. Depois, já em 1971, o próprio Comitê Central queria ficar livre de mim, porque eu levantava a tese da Revolução Socialista. Eles, em 1971, designaram que eu fosse para o estrangeiro. Então, a terceira parte que devia ir para o estrangeiro, eu fui encarregado de ir para a União Soviética. Aceitei, porque lá eu tinha todo o material para fazer minha autocrítica, que é o que eu desejava fazer, porque na frente do Partido, eu cometi muitos erros involuntariamente, porque eu aprendi o marxismo em parte na Argentina; depois, na União Soviética nos anos 32, 33 e 34. O marxismo que eu ensinava era do 6º Congresso da IC, que era um marxismo deturpado, modificado, que prejudicava completamente a nossa (...). Então, eu precisava examinar todos esses erros, para diante do Comitê Central mostrar onde estavam as raízes dos meus erros. O grande Lenin sempre disse que a autocrítica, reconhecer um erro, já é meio caminho andado, mas o verdadeiro comunista tem obrigação de não apenas reconhecer... porque nós estávamos com uma linha política errada que era a Revolução Nacional Libertadora; conquistar um outro governo capitalista, que expulsa o imperialismo. Essa é que era a nossa orientação e não luta pelo socialismo; não tínhamos que lutar pelo socialismo, disso eu já estava convencido. Então, Lenin dizia: "Além de reconhecer o erro, o comunista tem o dever de buscar as causas do erro, porque ninguém erra por acaso; erra, porque está mal orientado, porque está recebendo educação falsa, errônea." Eu, em maio de 1979, fiz uma análise detalhada dos meus erros, porque eu tinha errado, aceitando aquela Revolução Nacional Libertadora, quando o Brasil devia lutar, era um país capitalista. O Brasil, desde o fim do século passado é um país capitalista. O grande sociólogo Florestan Fernandes é de opinião que já no século passado - talvez seja um pouco de exagero – mas no fim do século, principalmente depois que acabou a escravidão negra, o Brasil já era de fato um país fundamentalmente capitalista. Restos de escravismo, restos ainda de feudalismo. Qualquer coisa assim pode existir, mas a formação econômica e social dominante é o lucro do capitalista e o salário do operário; é a característica do regime capitalista. Não era possível negar isso. E se é regime capitalista, eu, revolucionário, dentro do regime capitalista tenho que lutar é pelo socialismo e não por um outro governo capitalista, que vai resolver os problemas do povo como o Partido Comunista Brasileiro está lutando. E o Partido Comunista da Brasil também, ambos lutam por isso, governo capitalista democrático que vai resolver os problemas do povo. Isso é contra os princípios do marxismo, porque a lei fundamental do marxismo é a alei do desenvolvimento do capitalismo, da concentração do capital, quando mais de desenvolve o capitalismo, mais a riqueza se acumula nas mãos de uma minoria cada vez menor. Hoje, no Brasil, são os monopólios, toda a produção nacional, toda a riqueza nacional vai para mão das multinacionais. A burguesia que ganha dinheiro é porque ela é aliada das multinacionais, a grande burguesia, de maneira que toda a burguesia está aliada a estes monopólios. O governo é submisso a eles; eles mandam mais que os generais, mais do que o próprio Sarney, de maneira que essa é a realidade. Marx diz: "A riqueza se acumula nas mãos de uma minoria, e a miséria para as massas cada vez maiores." As massas vão ficando cada vez mais miseráveis e as camadas médias se proletarizam. Hoje, uma família que tem um orçamento doméstico de 40/50 salários mínimos, já é um orçamento relativamente alto; se não tiver uma propriedade, uma casa para morar, um apartamento, ela não pode alugar casa em Copacabana, porque com o alto aluguel da casa vai todo o orçamento da família. Tem que mudar para o interior, tem que sair das praias e tem que mudar para o interior. E isso cria problemas domésticos muito sérios, porque a família, a mulher, os filhos preferem as praias e o chefe de família não tem recurso para manter a família, para pagar aluguel num bairro de Copacabana, de Ipanema, nas praias do Rio de Janeiro. Essa proletarização vai se dando; pouco a pouco a miséria vai avançando. Essa é a lei do capitalismo; como é que eles vão conquistar, como diz o Partido Comunista Brasileiro, um governo capitalista democrático, que vai resolver os problemas do povo... é tolice, é utopia, está pensando ao contrário da ciência. É a ciência marxista, a ciência de verdade, porque vem confirmada pela prática. Isso pe que é ciência. De maneira, que nesse sentido, não resolve coisa nenhuma.
Qual a explicação para alguns fazendeiros gaúchos? É pelo seguinte, companheiros: o Rio Grande do Sul, ali na fronteira de Uruguai e Argentina é um estado em que tem havido muitas lutas armadas. Houve já a Revolução de 1893, quando do governo do Marechal Peixoto. A Revolução Farroupilha, que durou 10 anos e que proclamaram a República de Piratininga. Depois, como Caxias conseguiu fazer a paz, terminou a Farroupilha, em 1845; foi de 35 a 45. Essa é a tradição ali no Rio Grande do Sul, e os fazendeiros como chefes de muitos peões da fazenda, eles sempre têm a tropa armada. Mesmo no Rio Grande do Sul, no ano de 23, houve uma luta armada, entre um grupo de Assis Brasil Cintra e o do Borges de Medeiros, que estava no poder já há muitos anos. Por 25 anos, governou o estado e o Assis Brasil, que era um político de oposição, dirigiu uma luta armada durante todo o ano de 23. Foi o marechal Setembrino de Carvalho que organizou a paz. Conseguiu pacificar o Rio Grande do Sul no ano de 23. Mas em 24, quando nós nos levantamos, muitos desses pequenos fazendeiros... não são grandes fazendeiros, mas proprietários de terras. Têm a terra deles, têm peões que os acompanham. E aqueles são peões militares. São soldados que se apresentavam com quarenta homens; outro com 50 homens; outro com 60. Eu falei aqui de 11 grupos. Os 11 grupos se apresentaram com esses efetivos. Nós demos armamento e demos munição e eles eram eficientes e tinham opiniões próprias. Eles pensavam que, como tinham participado... a maioria deles tinha participado das lutas de 93; homens já com 60 anos; eles já não nos respeitavam, particularmente a mim. Fui eu que organizei a Coluna por ordem do Isidoro Dias Lopes e do João Francisco, e eles achavam que eu não entendia de guerrilha, de luta armada, que eles é que entendiam, mas quando precisava deslocar uma tropa dessas pequenas – 50 homens para ir para um ponto perigoso – se eu desse ordem, eles não iriam; de maneira que tinha que conversar com eles, passar muitas horas, tomar chimarrão, comer churrasco, e conversando até induzi-lo a dizer que aquele ponto era perigoso. Quando ele dizia, eu falava: "Só o senhor indo para lá." Então, ele ia, porque se eu desse ordem, ele não ia. O princípio era assim; uma luta. Depois que a luta de consolidou e que eu ganhei prestígio, então, aí, já a situação era mais fácil. E muitos deles não acompanharam a Coluna; ficaram no Rio Grande, porque, para muito gaúcho, passar pára Santa Catarina, já era imigrar; eles não queraiam imigrar. Isso aconteceu com soldados e também com comandante, que não quiseram passar para diminuir os seus efetivos. Quando nós entramos em Santa Catarina, ficou reduzido a menos. Uma parte ficou no Rio Grande. Não quis continuar a luta, mas uns 1500 avançaram até o Paraná. Já no norte, havia essa mesma tradição de luta. Havia esses combates, assim tão comuns. Então, o número de fazendeiros... pelo contrário, eles faziam todo o possível para esconder a cavalada deles. Muitas vezes, eles escondiam os cavalos, mas o peão da fazenda... não era ele fazendeiro que ia esconder os cavalos; ele mandava um peão levar os cavalos para um determinado lugar, depois, o próprio peão vinha lhe dizer onde é que estavam escondidos os cavalos. Mas uma vez, eu estava conversando com o fazendeiro. Ele tinha posto uns 30 cavalos doentes, cheios de feridas, na mangueira, e dizia que aquilo era um presente que ele nos fazia e que tinha separado aqueles cavalos para entregar todos os cavalos doentes. Quando ele estava conversando comigo, na varanda da fazenda, em frente ao portão, ele vê aparecer a cavalada dele toda. Ele ficou branco. Ele tinha me dito que já tinha vendido os cavalos, e os peões foram mostra para nós onde estava a cavalada dele, e nós passamos o recibo. Quando nós tomávamos esses cavalos, nós dizíamos tanto de preço. Então, o futuro governo revolucionário pagava. É claro, era um papel, mas de qualquer maneira era um documento que ficava, assinado por mim, e alguns receberam. Quando Getúlio tomou posse, alguns deles levaram esses papéis lá, e conseguiram receber a indenização.
Naquela época, realmente havia os grupos de cangaceiros no interior do Nordeste; o mais importante deles era o grupo do Lampião. É sabido que o deputado Floro Bartholomeu era o deputado do Padre Cícero. Era eleito com os votos do Padre Cícero. Quando a Coluna passou pela primeira vez no Ceará, ainda no Piauí, nós procuramos contato com o Padre Cícero, mas ele não quis nos receber, ele mesmo disse, enquanto Bartholomeu estava chamando o Lampião. Disse que tinha autorização do Presidente Bernardes, deu a ele uma patente de capitão e, ao mesmo tempo, armamento e munição para perseguir a Coluna, mas ele nunca procurou a Coluna. Quando nós passamos numa região, depois do Rio Pagerina, que era muito freq6uentado por Lampião e por outros cangaceiros, chegamos a ter, numa tarde, um ataque por parte deles, mas quando eles perceberam que não era a polícia, eles imediatamente cortaram contato e foram embora. E eu certo que não era Lampião; era um outro grupo qualquer que tentou, mas viu que não eram os macacos, como eles chamavam a polícia; então, desistiram. Foi o único contato que me lembro que tivemos com o grupo de cangaceiros do Nordeste. Não houve nenhum outro; nenhuma tentativa deles; eles não tinham interesse de nos combater; de maneira que, com o Cangaço mesmo quase não tivemos contato. Aqui, se pergunta: "Como era a comunicação, no caso que o inimigo se aproximava?" Para os nossos olhos, os olhos da Coluna, eram piquetes de potreadores, que toda manhã... cada comandante de deslocamento designava de 3 a 4 piquetes, bem dotados, compostos de 5 homens, no máximo 7 homens, que vinham procurar a mim, porque eu era o Chefe do Estado Maior... eu indicava a eles qual era a direção da marcha da Coluna e que eles fossem ou para a direita ou para a esquerda, indicava as cidades, os povoados que deviam atravessar e a tarefa deles era trazer cavalos e, ao mesmo tempo, informação. Esses homens iam até 100 km e poucos de distância e depois de um ou dois dias, procuravam a Coluna de novo e voltavam trazendo cavalos, moradores da região para que eu pudesse fazer o mapa. Porque o mapa do Brasil é muito precário; é um mapa muito geral, só das estradas principais. Nós conhecíamos todas as estradas vicinais, que ligam uma fazenda a outra, uma propriedade a outra, um povoado ao outro, e é isso que nos salvava, apesar da nossa precariedade de armamento e munição. E a tropa do governo, ao contrário, não conhecia nada disso; eles só conheciam as estradas principais.
Nós não tivemos nenhuma influência nele. eles receberam armamento do governo, principalmente, Lampião. O inimigo se aproximava, e nós sabíamos, através de nossos piquetes. Todo dia saíam uns dez piquetes, cinco piquetes para um lado e cinco para o outro. Através deles que nós recebíamos cavalos, recebíamos homens para eu poder ouvi-los. Precisava ouvir com muita atenção e com muita paciência, porque um homem que vinha preso, chegava na Coluna e via aqueles barbados todos sujos e rasgados... um espetáculo capaz de causar medo, mas tinha que ter muita paciência e entender a língua deles, porque eles falavam uma coisa... nós falávamos outra língua... eu tinha que me fazer compreender por ele e ele tinha que falar de uma maneira que eu pudesse compreender. Quando a pessoa não tem paciência, começa a conversa e a distância é tal, vai somar e dá completamente diferente do que eles dizem no total. De maneira que tem que ter muita atenção e tranqüilizá-los, porque o indivíduo, às vezes chegava assustado no meio militar. Assim que vê aqueles homens barbados, armados, assusta muito. É preciso ter muita paciência para lidar com eles. A perseguição da Coluna não houve por parte do Lampião. Não houve nenhum contato propriamente com o Lampião.
- Camarada Prestes, você não foi machista em não permitir mulheres? Até o Lampião deixou mulheres em suas tropas, porque você não deixava? Depois, ligada à questão da mulher, nós temos quinze perguntas que pedem um esclarecimento ou uma explanação sobre o relacionamento com Olga, e qual a sua importância no socialismo brasileiro. Bem, companheiros, ninguém mais do que eu tem um grande respeito pela mulher e reconhece o papel importantíssimo da mulher na política, na luta revolucionária. A mulher é de uma importância decisiva, sempre foi a minha opinião. Agora, como militar, eu queria manter a tropa unida e sabia que a mulher podia ser um fator de divisão, de choque entre os soldados. Felizmente, não houve nada disso... o que eu previa e queria evitar. Mas eu preferia que na tropa, realmente não tivesse mulheres. Eu era um oficial de carreira, eu era um militar, educado numa escola militar; já tinha sido aluno do Colégio Milita, depois da Escola Militar e oficial do Exército e disciplinador. Sempre exigi muita disciplina e sempre fui muito disciplinado. Era em torno disso que girava o problema da mulher. Hoje, no próprio Colégio Militar, as mulheres já estão sendo aceitas como alunas. o Colégio Militar já está recebendo meninas como alunas do Colégio. Não são só os jovens rapazes que são alunos; as meninas também já fazem concurso e participam do Colégio Militar. Quer dizer, o papel da mulher cresceu muito no Brasil, e ainda há muita restrição à mulher. O salário da mulher sempre foi inferior ao salário do homem. Por mais que a mulher lute, ainda essa discriminação existe. ninguém pode negar que para o mesmo trabalho, e até melhor trabalho feito pela mulher do que feito pelo homem e, no entanto, o homem tem salário maior do que da mulher. Essa é a realidade e uma das piores discriminações que há. Há diversas outras discriminações contra a mulher ainda no Brasil. Essa constituição procurou corrigir algumas coisas como o pátrio poder. A mulher pode tanto ser chefe de família como o homem. De maneira que já é um passo adiante. E as feministas têm conquistado algumas vitórias importantes. Desde trinta, foi conquistado o voto da mulher; a mulher passou a votar no Brasil, tendo influência mais direta na política nacional. É essa a minha posição hoje. Eu fui guerrilheiro e na guerrilha, a posição da mulher foi útil. Aquelas que eu achava que não deviam continuar, continuaram e prestaram grandes serviços, inclusive militares. Muitas delas me indicavam movimentos do inimigo e outras participavam, inclusive de arma na mão. Participando da luta armada mesmo contra o inimigo eram poucas, mas havia outras que ajudavam a cuidar dos feridos, que eram, às vezes, em grande quantidade; cuidar da alimentação; tudo iss era uma contribuição muito útil que as mulheres davam. De maneira que eu não tenho nada, pelo contrário, nesse sentido eu sou completamente desfavorável a toda discriminação. Sobre o papel da Olga. Quando eu cheguei no Brasil, em 1º de agosto de 1934, eu era um membro do Partido e era mero ouvinte. Em 35, eu vim para o Brasil para lutar contra o fascismo, porque o Partido Integralista tinha surgido, o Getúlio estava apoiando Plínio Salgado, e eu disse: "O Brasil vai marchar para o fascismo." Eu vim pra cá lutar contra o fascismo; e quando eu cheguei aqui, procurei me apresentar para o Partido e, simplesmente, não era nem membro do Comitê Central, mas fui eleito presidente de honra da Aliança Nacional Libertadora, que era uma organização independente. Me elegeu presidente de honra , então, eu fiquei representante do Partido. Aí, eu trabalhei, houve muitas dificuldades. Eu estava completamente escondido, clandestino, porque pensavam que eu ainda estava em Moscou. Não sabiam que eu já estava aqui no Rio de janeiro. E, nesse momento, a Olga foi um grande apoio para mim, porque ela conhecia bem o marxismo. Eu conhecia também; tinha estudado na União Soviética, mas ainda era novato. Ela tinha alguns anos a mais do que eu de estudo do marxismo e, nesse sentido, me ajudava bastante; contribuía muito e, além disso, era uma pessoa que contribuía muito para a minha ilegalidade. Quando eu saía com ela, os inimigos olhavam mais para ela do que para mim, porque ela era mais alta do que eu, relativamente bonita. Eu, diariamente, ia à praia em Ipanema; ia cedo para a praia e quando voltava, mais ou menos onze horas, um oficial do Exército, que foi meu colega de turma na Escola Militar, cruzava comigo... ele ia para o trabalho dele fardado... ele olhava para ela, mas não via a mim; assim, ele nunca me reconheceu. Abusamos um pouco até da clandestinidade. Até que a prisão nos separou. Quando fomos presos, fomos separados já no elevador da polícia. Ela ficou em um andar e eu fui para outro. E daí por diante, nunca mais a vi. Pude ter uma carta dela. Ela me escreveu comunicando que estava grávida e não sabia. E depois, ficou alguns meses na Casa de Detenção e foi mandada para a Europa. Eu sabia que, mandada para a Europa, seria assassinada. Passou alguns meses em uma prisão de mulheres, enquanto Hitler estava construindo o campo de concentração de Havens Brook, para mulheres. Quando o campo ficou pronto, ela foi mandada para lá, onde ela tinha uma vida muito dura. Trabalhavam na terra, na lama e era uma coisa terrível. E ali, ficou até 42. Em 42, o Hitler já precisava de vagas no campo para botar as mulheres polonesas, as mulheres da união Soviética, que eles viviam prendendo e elas foram retiradas. Umas duzentas mulheres foram para a câmara de gás para serem assassinadas num outro campo de concentração. E isso era sabido já. Quando Getúlio assinou aquele Decreto, ele já sabia que a conseqüência do Decreto era essa. Foi o maior crime de Vargas. Era uma revolucionária firme, decidida, conhecedora do marxismo. Ao mesmo tempo, uma pessoa muito doce, muito carinhosa. Tinha uma verdadeira paixão pelas crianças. De maneira que vivia sempre com relações muito boas comigo e com todas as pessoas que conhecia. É o que eu posso dizer sobre ela. |
|