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Série Lutas Populares no Brasil (1924 - 1964)Cangaço – Caderno 1 |
Roubo de terras, assassinatos, abuso de poder. No sertão, o coronel (latifundiário) é quem decide sobre homens e coisas. É chefe, juiz, delegado. Suas vontades são sentença. Sem perigo de sanções, usam a violência para aumentar seu domínio. Seu instrumento é o janguço, protegido e protetor. Esse caderno trata desse momento histórico, e o professor Júlio José Chiavenatto trata de desmistificá-lo, mostrando que "o Cangaço é um sistema de luta de classes que se processava no Nordeste. Só que o cangaceiro não tinha consciência social e o Cangaço acabava sendo simplesmente uma reação à miséria que não se resolvia de forma racional, se resolvia pela violência. (...) O cangaceiro não tem nenhum fim social na sua luta, ele não busca posse de terra e a justiça social, ele luta simplesmente pela sua sobrevivência e o Cangaço passa a ser um meio de vida." A coordenação do debate ficou sob responsabilidade da Profª Marli Valente, integrante do quadro de sócios do CEDAP. A linguagem do caderno é muito simples, com certeza ajudará a compreender esse fenômeno que foi o Cangaço. A equipe do CEDAP Lutas Populares no BrasilCangaçoComentários de Chiavenatto sobre o filme "Memórias do Cangaço" Antes de entrar no que eu tenho a dizer, gostaria de falar alguma coisa sobre o filme que nós vimos, Memórias do Cangaço. Apesar de estar muito truncado, a cópia muito gasta, a imagem é tão forte que só por ela dá para deduzir alguma coisa. Algumas coisas são muito interessantes nesse filme. Vocês viram quase no final aquela pessoa dizer: "eu mato se falar, se gravar qualquer coisa"? É a Dadá, mulher do Corisco. Essa cópia que vimos não é a cópia final do filme. Dez anos depois que o filme foi feito, a Dadá concordou em dar uma entrevista para o Paulo Soares, que foi incluída no filme, e infelizmente não está nessa cópia. mas as imagens do filme são muito fortes, principalmente bonitas, dramáticas, aquelas imagens de Abraão filmadas em 1936, quando ele andou com os cangaceiros. Apesar das imagens de Benjamim Abraão serem fortes e bonitas e dizerem muito dos cangaceiros, elas são muito mentirosas também, porque aquilo tudo é encenação. Os cangaceiros não lutavam, não se comportavam daquele jeito quando estavam na caatinga. Eu digo isso para reforçar uma coisa, mesmo sabendo que eu vou ser um "estraga festa". É um mito que foi criado, como o mito que se cria sobre tudo no Brasil, sobre os cangaceiros. Até o que é aparentemente muito verdadeiro, tem que ser encenado para passar para o público, como é o filme de Benjamim Abraão. Mas nesse filme aparecem duas moças saindo da adolescência, ou entrando na adolescência, e pela informação que eu tenho, imagino que uma deva se chamar Enedina e a outra Sila. São duas cangaceirinhas que aparecem rapidamente passando pela tela, mal dava para prestar atenção, elas deveriam ter entre 12 – 13 anos de idade. Isso também é muito forte no filme e quase ninguém prestou atenção no que isso revela. No bando de cangaceiros, não só no de Lampião, nos bandos de muitos cangaceiros, havia uso de muitas crianças entre 12 – 13 anos de idade, já combatendo. Sobre o Cangaço, existe uma série de mitos e de falsas interpretações que têm o fenômeno do Cangaço com uma auréola de heroísmo ou de revolta ou até de uma pré – disposição revolucionária do sertanejo, e as coisas não são bem assim. É muito bonito idealizarmos coisas e romantizar, mas nessa idealização e romantização nós acabamos sem saber como as coisas foram realmente e, principalmente quando existe uma luta popular, quando não entendemos as lutas passadas, acabamos repetindo vários erros que são inclusive forjados e estimulados pelas classes dominantes. Vamos tentar ver o Cangaço nas suas origens, nas suas causas e nos seus defeitos. A origem do Cangaço é o latifúndio, isto é bastante óbvio, e o Cangaço é uma latente no Brasil, no Nordeste, da Bahia pra cima, desde os tempos da colônia, quando a terra foi dividida em sesmarias e foi doada para senhores de terra com grandes latifúndios. A necessidade de manter a posse da terra, de ter a terra, fez com que esses donos de terra mantivessem exércitos para lutar contra os índios, lutar contra os pobres, os posseiros, e depois também houve a necessidade de manter esses exércitos, grupos de capangas, de bandidos, etc... para manter a própria mão-de-obra, ou seja, para manter o escravo, prisioneiro, para evitar ou lutar contra a rebeldia do negro escravo. Dentro desse processo de polícia particular de bandoleirismo do dono da terra, para manter a posse da terra e o domínio sobre a mão-de-obra, sobre o trabalhador, a primeira figura que emerge, que já é o cangaceiro surgindo, é o Capitão do Mato, que é o sujeito que vai caçar o trabalhador no mato quando ele foge – daí o seu nome – ou que mantém a ordem na senzala e dentro das roças. A outra origem do Cangaço é o sistema que impera ainda hoje no Nordeste, na zona rural, de semi-escravidão. O trabalhador rural no Nordeste geralmente é um semi-escravo, o nome, inclusive, que se dá a ele é agregado, ou seja, ele é uma pessoa que se agrega à propriedade, é uma parte da propriedade e é também posse do dono da terra. Geralmente, ele não tem salário, é permitido que ele fique ali pela terra, e o dono da terra, o latifundiário, dá alguma coisa mínima daquilo que ele produz em troca de seu serviço. Um sistema de semi-escravidão gera miséria, gera uma série de injustiças sociais que explodem em revoltas pessoais e uma dessas revoltas dá origem ao cangaceiro; isto quanto às origens. Quanto às causas do Cangaço, uma delas é a manutenção da propriedade privada. Era preciso, como antigamente, os exércitos particulares dos senhores de engenho, ou dos grandes donos de sesmarias do século XVIII até 1930, grupos de bandoleiros garantiam a posse de terra. A terra no Nordeste só recentemente começa a ser cercada, antes, ela não era. As divisas eram mais ou menos vagas. O que marcava bem a divisa da terra era o poder de violência do senhor; de ele dizer: "Essa terra é minha, aqui ninguém passa, nessa terra é o meu gado que vive." Para ter essa força de manter a propriedade privada, ele precisava de grupos armados, grupos de capangas que de vez em quando se transformavam em cangaceiros ou vice-versa. Uma das causas também do Cangaço era a necessidade do dono da terra no Nordeste controlar as populações rurais, vivendo numa intensa miséria. Era de se esperar, como aconteceram em várias ocasiões, que o sertanejo se revoltasse e quisesse mudar sua situação pelas armas. Os grupos de cangaceiros, como vários outros de repressão no Nordeste, foram estimulados e pagos por grandes senhores de terra para manter a população rural num regime de terror, num regime até de apavoramento, de letargia, sabendo que se ele se rebelasse, o cangaceiro vinha e o liquidava. E existem os efeitos do cangaceirismo. O primeiro deles é a violência desmedida que imperava no sertão. Um dos efeitos mais dramáticos e mais terríveis que eu vejo no Cangaço é o desvio do potencial revolucionário do povo. Aquela latente energia revolucionária que existia no Nordeste era desviada para o Cangaço. Ao invés de revoltar revolucionariamente, de tomar consciência política, o sertanejo quando se rebelava ao extremo, entrava para o Cangaço, ou ao contrário, era vítima do Cangaço. Um dos sintomas desses efeitos que se vê hoje, é a alienação e o mito do cangaceiro. Nós ainda mantemos o mito de que o cangaceiro é um herói social, que lutava pela justiça, que roubava dos ricos para dar aos pobres – a situação não é bem essa. Foi por isso que eu disse que ia entrar aqui como um "estraga festa". Parece que eu estou usando uma linguagem bastante policial. Não se trata disso, trata-se de colocar as coisas certinhas. Na verdade, o Cangaço é um sintoma da luta de classe que se processava no Nordeste. Só que o cangaceiro não tinha consciência social e o Cangaço acabava sendo simplesmente uma reação à miséria que não se resolvia de forma racional; se resolvia pela violência. Para entendermos bem tudo isso, é preciso acompanhar como atuavam os cangaceiros, e, principalmente, o grupo de Lampião, de quem se tem mais informação. Por exemplo: toda luta popular no Brasil tem origem na luta pela terra. Se pegarmos o exemplo de Canudos, que é uma luta popular de verdade, percebemos que o sertanejo não lutava por fanatismo, como a história oficial há tanto tempo vem afirmando. Ele lutava porque queria uma terra para ele, é o sertanejo lutando pelo seu direito à propriedade, pelo seu direito à vida justa, à dignidade. Assim foi o Contestado, assim foi também no Vale do Cariri, o movimento encabeçado pelo Beato Lourenço Caldeirão, logo após a morte do Padre Cícero. Enquanto os movimentos autênticos populares lutavam pela conquista da terra, o Cangaço, ao contrário, expulsa o homem da terra. O cangaceiro não tem nenhum fim social em sua luta. Ele não busca a posse da terra, ele não busca a justiça social, ele luta simplesmente pela sua sobrevivência e o Cangaço passa a ser um meio de vida. Aliás, o próprio Lampião, que era muito inteligente, era muito claro sobre isso. Ele disse numa entrevista que se tornou famosa, que no sertão, a vida só era boa para militar, juiz de direito, latifundiário ou bandido. Então, a única opção dele, a única coisa que ele podia fazer era ser bandido. Essa é a diferença entre o Cangaço e movimentos populares: ele não luta pela terra, pelo contrário, ele expulsa o homem da terra. Aí, surge também outra questão: "Por que os cangaceiros entram no Cangaço?" No filem que nós acabamos de ver e em centenas de livros que existem sobre o Cangaço, ou centenas e centenas de entrevistas, quase todos os cangaceiros que são entrevistados dizem que eles entraram para o Cangaço por uma intriga da polícia, porque eles foram ofendidos com a violação da irmã, da mãe, de um parente qualquer ou porque foram expulsos de suas terras. Isso é o componente forma da história. Na verdade, toda essa gente entra no Cangaço para encontrar um meio de vida, para sobreviver dentro de uma sociedade bastante miserável. É um simplismo muito grande achar que um movimento intenso como foi o Cangaço, durante mais de 60 anos na história do Brasil, que atraiu centenas de bandoleiros sobreviveu tanto tempo simplesmente porque o Cangaço é o melhor meio de sobrevivência que existia no Nordeste. Infelizmente, não era um meio de vida estendido a todos os nordestinos. Era preciso ser uma espécie de "super-homem", porque era preciso ter muita coragem e muita disposição para a luta e ter uma espécie de fanatismo trágico para enfrentar aquela vida que nunca acabava bem para eles próprios. Uma das coisas que os livros sobre o Cangaço passam por cima, é que na região do Cangaço, em quase toda cidade ou vilarejo, e isso ainda acontece hoje no Nordeste; eu estive lá não faz 30 dias, e pude ver isso no sertão do Rio Grande do Norte, que não é um dos estados mais pobres do Nordeste, existiram e existem ainda as Feiras de Trabalhadores. O que é a Feira dos Trabalhadores? É uma feira de trabalhadores, onde estes ficam ali parados na praça central da cidadezinha e os donos de terra chegam com seus capatazes e vão escolher os trabalhadores. Como nem todos os trabalhadores são escolhidos, a maioria deles fica sem salário, ou seja, têm fome. Na época do Cangaço, são esses trabalhadores que não conseguem trabalho na feira que acabam entrando para o Cangaço, principalmente aqueles que como muitos, sofreram alguma injustiça. A injustiça, a perseguição da polícia, a perda de terra, roubo, etc..., é uma causa formal da entrada para o Cangaço. O conteúdo disso tudo é a miséria, é o latifúndio que gera miséria. Eu disse que o Cangaço acabava sendo um excelente meio de sobrevivência para o nordestino. Só que esse nordestino que entra para o Cangaço, como é natural, e eu não vou teorizar sobre isso, se não fica muito longo, ele não tem consciência social, ele não adquire consciência política do papel que ele poderia desempenhar no Cangaço. Então, ele acaba exercendo a violência, e dessa maneira, acaba servindo ao dono de terra. E essa é a história de todos os grupos de cangaceiros, desde os mais antigos até aqueles últimos mais recentes – passando por Antônio Silvino, Corisco, Lampião, etc... Isso acontece porque primeiro o cangaceiro como sertanejo, como trabalhador
espoliado, como homem humilhado a quem se nega tudo no Nordeste, se torna
um revoltado, ele é um sertanejo revoltado, é um desempregado
crônico, está sempre passível de ser expulso das terras
do latifundiário; a família está sempre passível
de ser humilhada; as filhas e irmãs sempre estão passíveis
de serem estupradas pelo senhor das terras. São pequenos grupos. No máximo, Lampião teve 50 homens. Às vezes, ele comandou 100, mas, no geral, ele comandou de 15 a 20 homens. Mas ele tinha quase sempre 12, que era o número que ele gostava de trabalhar. E como são pequenos grupos num espaço imenso, numa região que tem polícia, que tem exército, que tem outros tipos de bandoleiros, esses pequenos grupos seriam facilmente sufocados, esmagados e destruídos se eles não se aliassem ao poder. A sobrevivência durante um longo tempo dos grupos de cangaceiros, principalmente do grupo de Lampião, está em que eles se aliavam aos grandes latifundiários. Aliando-se aos latifundiários, sem consciência política, alienado da condição social, sem nenhuma informação ideológica, sem capacidade de interpretar profundamente a realidade da terra, e dentro daquela cultura fatalista do Nordeste, onde se acreditava que Deus fez o mundo de tal maneira, que tudo é feito por ordem de algum ser divino, onde os cangaceiros, por exemplo, acreditavam fielmente naquilo que Padre Cícero dispunha, e o próprio Padre Cícero foi um grande coiteiro de cangaceiros e foi um grande chefe de bandidos, inclusive aliado ao deputado e depois general Floro Bartholomeu, esse cangaceiro vai se diluir, como uma força revolucionária, e é esse o grande drama do Cangaço, porque é uma potencialidade extraordinária, se houvesse, e "se" é muito perigoso em história, se houvesse um determinante qualquer que desse uma visão mais social ao Cangaço. Dessa forma, o cangaceiro assume todos os valores da sociedade que o esmaga, ele é marginal, que é marginalizado; ele é perseguido pela polícia, pelo exército. Acaba assumindo os valores dessa mesma sociedade que o persegue. Ele usa a lei do mais forte e faz da força o seu meio de sobrevivência. Acaba se adaptando, dessa maneira, a um código de sobrevivência, a um código de conduta que quase sempre é idealizado pelos intelectuais. E o cangaceiro, de bandido e alienado, de produto do coronelismo, acaba sendo interpretado como um herói social. Por que? Porque, potencialmente, dentro d quadro de miséria e de injustiça social, todo sertanejo é um herói social, porque ele enfrenta a miséria, enfrenta a fome, enfrenta a injustiça, enfrenta tudo. Ele é o oprimido, é aquele a quem todo intelectual e toda pessoa de um mínimo de sensibilidade se identifica e se solidariza. No entanto, a rebeldia não vem daquele sertanejo que trabalha no chão, que é o vaqueiro, etc. Ela vem do cangaceiro e o cangaceiro, quando se rebela, infelizmente, ele não se rebela para mudar a situação; ele simplesmente se rebela contra sua própria situação particular e para a usar a violência como meio de sobrevivência. Para isso, ele se alia à política dos coronéis, ao coronelismo; aí, os coronéis passam a usar os cangaceiros para delimitar suas zonas de poder. Por exemplo, Lampião tinha uma aliança muito forte com o governador de Sergipe. Daí se explica porque ele fazia poucas incursões no Sergipe. Do governador do Sergipe, ele recebia armas e dinheiro e havia um acordo tácito de quando ele estava sendo perseguido, em Pernambuco ou no Ceará, entrava na região sergipana e, aí, a polícia sergipana não o perseguia. Essa aliança que o governador fez com Lampião, e foram feitas alianças assim com vários outros cangaceiros, era no sentido de controle das populações rurais para que obrigassem os sertanejos a votarem sempre no partido da situação, mesmo naquele tempo me que o voto era chamado "voto a bico de pena", que o sujeito assinava o nome embaixo de quem queria votar, era preciso uma espécie de pressão e dessa maneira também Lampião mantinha a ordem no sertão. Mantinha a ordem no sertão de que forma? Mantinha a ordem em que os trabalhadores ficavam mais ou menos passivos e os chefes políticos locais, nas várias zonas o sertão tinham que fazer a política que agradasse ao governador para não sofrer represálias dos cangaceiros, de Lampião, em particular. O que acontecia muito era que Lampião, aproveitando-se dessa força, e ra o principal negócio dele, vendia proteção, como a máfia nos Estados Unidos vende proteção. Então, simplesmente, tem várias cartas e bilhetes do Lampião aos grandes latifundiários mais ou menos nestes termos: "Caro senhor, me mande 10 contos de réis ou 20 contos de réis que eu protejo a sua propriedade e estou disposto a fazer o serviço que o senhor me recomendar." A grande maioria dos chefes políticos e latifundiários mandavam dinheiro e aceitavam os serviços dele, porque era justamente isso que eles queriam, e, assim, quando precisavam matar um inimigo político ou expulsar um trabalhador de suas terras, chamava-se um cangaceiro ou o grupo de Lampião, que ele fazia o serviço tranqüilamente. Lampião foi muito mais bandido que o herói social que se tenta pintar. Como a realidade social do Nordeste é muito injusta, como o desejo que a gente tem é muito grande e para aquela situação ser revertida, nós cometemos um exercício de metodologização e idealizamos algo que não houve: Lampião, o cangaceiro, como um lutador popular. Não era evidentemente isso. O que contribui, pelo menos na visão popular, para essa confusão também é que Lampião raramente maltratava os pobres. Os poucos pobres que ele ameaço foi num acesso de mau humor, ou quando estava bêbado; os cangaceiros bebiam demais. Ou, então, por vingança, quando algum coiteiro pobre o denunciava. Por que ele não atacava os pobres? Porque os pobres não tinham nada a dar a Lampião. No entanto, todas as grandes maldades de Lampião, todas as grandes mortes que Lampião fez foi contra pessoas pobres, contra o trabalhador sertanejo. Lampião nunca matou um coronel do sertão. Pelo contrário, o coronel do sertão pagava para que ele matasse. Na história do Cangaço, existe só um ou dois casos de chefes políticos que foram assassinados por cangaceiros. E não foram assassinados por vingança, por desapropriação de bens, nada disso. Foram assassinados a mando de outros chefes políticos. Outra coisa que eu queria colocar a respeito disso para que depois possamos conversar, é que nas questões políticas, Lampião e os cangaceiros em geral, sempre estiveram ao lado do poder. Eles sempre estiveram com o governo, embora eles fossem, em determinados momentos, perseguidos pelo governo. Outra coisa interessante e que poderia ser colocada aqui, é o fato de que até 1930, que é o auge do Cangaço, Lampião tem uma liberdade muito grande de andar pelo sertão, porque exercia, naquele momento, a política do coronelismo. Em 1930, vem a revolução da Aliança Liberal, a Revolução de Getúlio Vargas, que quer por fim ao poder do coronelismo, principalmente no Nordeste, e tentando fazer isso, desarma o Nordeste. Seguem comissões militares para o Nordeste e desarmam os grupos de bandoleiros dos coronéis. Isso vai enfraquecer os coronéis e, ao mesmo tempo, fortalecer os grupos cangaceiros. Outra coisa muito interessante também é no que se refere ao "Capitão Lampião". Muita gente pensa que o título de capitão é uma espécie de basófia de Lampião, que se intitulou capitão por vontade própria, mas não foi bem assim. Lampião era realmente capitão. Ele era capitão do Exército Patriota, título dado pelo Governo Federal. Isso aconteceu porque Lampião coroou a sua carreira a serviço do latifúndio, do poder, quando foi convocado pelo Padre Cícero e o General Floro Bartholomeu à Juazeiro, em 1926, para perseguir a Coluna Prestes. Para perseguir a Coluna Prestes, que estava fazendo aquele furor pelo interior do Brasil, o Governo convoca Lampião e dá a ele a patente do Exército Patriota. Ele passa a ser capitão; o irmão dele, Antônio Ferreira é tenente e vários outros cangaceiros recebem um título. Esses títulos são simbólicos, mas davam autoridade de capitão e de oficial do exército para ele agir. Tanto é que nesse momento, em 1926, quando Lampião é agraciado com o título de capitão, ele não é agraciado só com esse título simbólico, ele recebe muito dinheiro; 100 contos réis, que, naquela época dava para comprar 3 grandes fazendas no sertão. Lampião comprou duas e era também proprietário de terras em Porto da Folha. Ele recebe 100 contos de réis e todo o bando dele ganha fuzis e munição do Exército Nacional, inclusive metralhadoras. Só que como bom bandido, Lampião percebe que o exército queria usá-lo contra a Coluna Prestes e não iria cumprir o trato que tinha feito com ele. O trato que o Governo tinha feito era o seguinte: "Depois que Lampião liquidasse a Coluna Prestes, todos os cangaceiros seriam anistiados ou incorporados ao Exército." Quando ele desconfiou que isso não iria ser cumprido, desiste de perseguir a Coluna Prestes e foge para o Cangaço outra vez, levando todo o armamento do Exército Nacional. São coisas muito interessantes a respeito de Lampião. Outra coisa interessante também, desse vários mitos que se criam, é da capacidade militar de Lampião. Lampião e os cangaceiros em geral realmente tinham uma grande capacidade militar que é incontestável. Mas muitas pessoas e alguns escritores chegaram a dizer que os cangaceiros são os maiores guerrilheiros da história. Na verdade, eles não eram guerrilheiros coisa alguma, eles eram bandoleiros. A guerrilha é uma forma de luta revolucionária muito distinta da luta dos cangaceiros. A guerrilha tem características que todos conhecem. Ela e concentracionária: é dispersiva na forma de luta para enfrentar o inimigo, mas tem uma estratégia de concentração de forças para ocupar determinados espaços, para atingir um determinado fim político. A guerrilha é isso: dispersar, usar várias formas de luta e concentrar forças para atingir um espaço que permite chegar a um objetivo político. Os cangaceiros lutavam simplesmente por nada, simplesmente pela sobrevivência e mais nada. Não eram guerrilheiros, pelo contrário, eles poderiam ter feito coisas muito melhores. E não se diferenciam muito volante, polícia e Cangaço. Os policiais que perseguiam, que eram as volantes, eram sertanejos da mesma forma que os cangaceiros, com a única diferença que estavam do outro lado. Ambos os lados cometiam as mesmas barbaridades, sendo que as volantes, a polícia, eram muito piores que os cangaceiros, porque os cangaceiros, por necessidade própria e, em muitas situações, respeitavam a população rural porque eles tinham que viver ali, e a polícia como vinha perseguir e ia embora, geralmente saqueava, matava gratuitamente, não respeitava ninguém. Os métodos de luta dos cangaceiros e os métodos de luta das volantes eram os mesmos. Na maioria das vezes, as grandes vitórias dos cangaceiros, com poucos homens, sob centenas de homens da volante, resultado tradicional e crônico no Brasil: corrupção das volantes. Os chefes políticos e até governadores de estado manobravam essas volantes para que em determinadas situações elas não perseguissem os cangaceiros, ou que chegassem ao local onde os cangaceiros estavam acoitados depois que eles tivessem fugido. Essa é a diferença: a diferença é a corrupção – e os dois bandidos andaram cortando cabeças adoidado. Ao contrário do que se pensa, isso não era pura maldade, era uma necessidade da profissão deles, cortar a cabeça do inimigo. Por quê? Porque, por exemplo: quando uma volante matava um cangaceiro ganhava um prêmio determinado e para provar que matou um cangaceiro de valor, tinha que levar a cabeça do "bicho". Era a prova da identificação, porque, no começo, muitos falavam: "Eu matei tal cangaceiro", enterrava numa cova, depois de dois ou três meses ia até lá e desenterrava, e lá estava o cadáver irreconhecível e ninguém sabia quem era. Então, cortar a cabeça era, na verdade, uma forma de identificar o inimigo, identificar quem estava morto. A maldade neste corte de cabeça, quem comete não são os policiais, não são as volantes, que eram caboclos simples e tão valentes e tão bandidos e tão vítimas quanto os cangaceiros. A maldade é cometida depois, pelas próprias autoridades e cientistas, principalmente na Bahia. Como apareceu no filme: pegam as cabeças e expõem, e ainda defendem teses absolutamente absurdas, querendo ver nos cangaceiros o produto de taras, de degeneração genética, o que é uma coisa completamente absurda. O mito é uma coisa muito terrível. Estamos sempre acostumados a ouvir uma história no Brasil, e quando vamos pesquisar, a coisa é outra. Alguns mitos, nós gostamos de destruir: são os mitos que favorecem o poder, como o mito do herói nacional. Quando provamos por A + B que o Duque de Caxias, por exemplo, não é militar heróico, que é um homem de carne e osso, como outros que cometem crimes, etc, isso, fazemos com muito prazer. Mas quando descobrimos que um herói com o qual desde criança nos identificamos, o cangaceiro, que víamos como libertador do povo, que ele é um alienado, um bandido, e um capanga do coronelismo, isso não é muito agradável. Mas essa é a verdade, e se nós não encararmos a verdade, acabamos repetindo as centenas e centenas de farsas que existem na nossa história e que nos enganam e nos levam para caminhos que, às vezes, não têm saída. Eu sinto muito ter estragado a festa. Cangaceiro não é herói. Agora, respondo a quem quiser perguntar.
Eu não uso princípio marxista tão rigidamente e nem saberia explicar. Eu sou socialista, influenciado enormemente pelo pensamento de Marx. Sintetizando, eu acho que a luta de classes é o motor da história; tudo o que se faz depende da luta de classes e é por aí que se explica a história. Mas eu não me prendo a nenhum princípio quando analiso, quando pesquiso, quando escrevo. Toda minha formação, lendo Marx e outros pensadores, transparece em meus livros sem que eu me preocupe em expressar um pensamento mais ou menos dogmático. Marx era uma cabeça estupenda, o maior pensador do século XIX, até hoje poucas pessoas pensaram tão bem quanto ele, é uma das intelectualidades que mais me iluminam, mas ele não é culpado de tudo que eu escrevo.
O papel das mulheres nos bandos de cangaceiros foi muito importante. Até 1928, Lampião não aceitava a mulher no Cangaço, e a partir daí, ele se une à chamada Maria Bonita, que no bando ninguém chamava de Maria Bonita, chamavam de Dona Maria. Quando ele se uniu à Maria Bonita, permitiu que os outros cangaceiros trouxessem para o bando suas mulheres. A função da mulher nos grupos de Cangaço é muito interessante, como é interessante também a visão machista dos nossos intelectuais quando vão analisar as mulheres no Cangaço. Um escritor muito interessante, diz que a partir de 1930, Lampião começa a perder terreno justamente porque os cangaceiros estão sendo atrapalhados pelas mulheres. Porque estão sendo atrapalhados pelas mulheres!? Porque na hora de fugir as mulheres ficam para trás, porque tinham a mania de ficar limpando o acampamento, etc...essa visão machista é a forma de como um intelectual, até bem esclarecido, transfere para o Cangaço de 30 a 40 anos atrás, os preconceitos de hoje. Na verdade, a mulher no grupo de Cangaço não tinha nenhuma função específica, porque a função dela era a mesma função do homem. Uma coisa interessante: as mulheres não cozinhavam nos grupos de Cangaço. Era tão bem organizado o grupo de cangaceiros que cada dia cabia a um do grupo cozinhar e as mulheres eram tão poucas que foram excluídas desse trabalho. Outra coisa que as mulheres no grupo de cangaceiros não faziam
era costurar. Existiam cangaceiros que eram grandes costureiros, fazendo
obras de artesanato. Inclusive um cangaceiro famoso, que fugiu e na hora
que ele ia fugindo Maria Bonita gritou para ele: "Porque você
está fugindo? Você não disse que iria morrer com Lampião?"
Aí, ele volta para enfrentar a volante e acaba morrendo naquele
momento. Ele se chamava Luiz Pedro, ele era o mais famoso costureiro dos
cangaceiros, ele fazia embornais e blusas com costuras de alto artesanato. Uma coisa interessante é que as mulheres no grupo não carregavam nenhum tipo de punhal e nem fuzil, elas carregavam só pistolas automáticas. Elas eram muito jovens e muitas delas tiveram filhos durante o período que estavam no Cangaço, inclusive algumas tiveram que ter filhos fugindo da volante. Há uma lenda também sobre isso. Dizem que o Lampião era um excelente parteiro e que ele fazia partos. Isso tudo é mentira; Lampião não entendia de parto e nunca fez parto, elas mesmas tinham suas parteiras. Havia um negro no grupo de Lampião chamado Zé Baiano, um sujeito feroz, encarregado de ferrar as mulheres. Todas as mulheres de quem Lampião queria se vingar, por um motivo ou outro, ou quando um qualquer pagava para Lampião se vingar, essa mulher era aprisionada e entregue ao Zé Baiano, e ele tinha um ferro daqueles de ferrar boi e ferrava, na face, essas mulheres. E esse Zé Baiano, com toda sua ferocidade tinha uma amante e era conhecido, principalmente, pela volante, pela ternura com que tratava a amante, servindo comida para ela na boca. Então, é um negócio freudiano; assim, podemos ver como certas sutilezas sexuais acontecem até entre os machões cangaceiros. O Zé Baiano, que era esse feroz ferrador, e a amante dele, eles simulavam algumas brigas em que a mulher dele se fingia muito raivosa e o atacava com o chicote e o chicoteava na frente dos cangaceiros e ele chorava e gemia pelo chão.
Algumas eram raptadas, a grande maioria ia de livre e espontânea vontade. No sertão, não se diferenciava muito o cangaceiro como o bandido, ele era tido como herói. A mesma falta de consciência social que o cangaceiro tinha, o povo do sertão também tinha. Então, via no cangaceiro um sujeito poderoso, um homem forte que enfrentava a vida, que lutava e que vencia, e muitas mulheres, principalmente as mocinhas, se apaixonavam por esses tipos e acabavam entrando no Cangaço para seguir seus heróis e passavam a ser cangaceiras e assumiam o mesmo nível e ritmo de vida deles, inclusive as mulheres tiveram muita influência no Cangaço. Uma das mulheres que mais influência teve no Cangaço é a Dadá, mulher de Corisco, que ainda está viva, dá muita entrevista. Os depoimentos que existem sobre ela, apresentam-na como uma mulher de muita maldade e que influenciava muito no Corisco no sentido de cometer várias estripulias das que ele cometeu. Por outro lado, existiam mulheres que eram apaziguadoras, como Maria Bonita, que continha muito Lampião e salvou a vida de muita gente. A grande maioria entrava para o Cangaço de vontade própria, porque se apaixonava pela figura do herói cangaceiro.
Só ouço falar, mas não sei nada sobre isso.
- A violência e o modo de vida nas favelas de hoje, bandos que assassinam uns aos outros nas favelas do Rio de Janeiro. Poderia ser comparado ao que praticava os cangaceiros, isto é, uma forma de sobrevivência, alienada de consciência social? - Será que nós poderíamos colocar alguma semelhança entre os grupos dos cangaceiros e os mais recentes grupos de extermínio de pessoas e de bandidos no seu objetivo? - Você vê semelhança entre o Cangaço e a UDR? De certa forma, guardadas as proporções no tempo e no espaço, existe, sim, uma semelhança entre os cangaceiros e os justiceiros. Esses justiceiros que aparecem em São Paulo, eles só começam a ser punidos e apresentados como criminosos pela polícia quando eles começam a concorrer e atrapalhar a corrupção da polícia. Enquanto eles estão cumprindo um serviço que compete à polícia sem prejudicar a sacanagem da polícia, eles são tolerados. Esses justiceiros, o que eles fazem nas favelas? A pretexto de acabar com malfeitores, eles acabam também com o trabalhador. É comum... eu faço muitas palestras em São Paulo, naqueles bairros marginais, Sapopemba, Vila Prudente, etc... o justiceiro que mata o arruaceiro quer ser respeitado por aquela população porque dá segurança, matando o arruaceiro. Mas ele mata um cidadão pacato também. Porque o dono da casa onde ele mora, aquele cidadão pacato quer o aluguel mais caro e o cidadão não quer sair, então ele vai lá, mata e põe a família para fora. Existem, guardadas as diferenças de tempo e espaço, uma certa semelhança, que não é muito a semelhança de atuação, ou de existência, entre o justiceiro e o Cangaço, como uma semelhança de uso das classes dominantes, de controle da marginalidade, para virar essa marginalidade contra o próprio povo. Isso aconteceu sempre no Brasil e está acontecendo. por outro lado, os esquadrões da morte, eles são também a mesma coisa, são os cangaceiros de hoje, sem a justificativa que os cangaceiros tinham. Apesar de tudo o que eu disse dos cangaceiros, que eles não eram revolucionários, que eles acabavam sendo bandidos, etc... eles têm uma justificativa e acabam merecendo o perdão da história. É possível entender os cangaceiros. É preciso saber que os cangaceiros não eram culpados daquilo, eles não tinham nenhum espírito maligno por trás deles, eles não tinham nenhuma perversidade pensada naquilo, era simplesmente um meio de sobrevivência. Eles eram até péssimos ladrões, roubavam muito pouco. Os esquadrões da morte não, eles são perversos em sua natureza; eles matam a pedido, a mandado do poder. Quem o poder diz que não serve mais, eles matam, mas matam de uma maneira fascista, para livrar a sociedade daquelas pessoas e não como uma justificativa de uma situação social, que em determinado momento produz um desvio de comportamento dentro de grupos sociais. Quanto a UDR e o Cangaço, eu acho que é uma ofensa para o Cangaço ser comparado a UDR.
- Por que o nome Lampião? - Por que o Cangaço e não outro nome que nós conhecemos como bandido, justiceiro, baderneiro, etc? - O que significa Cangaço? - Existe Cangaço, ainda hoje, no Nordeste ou acabou tudo depois da morte de Lampião? - Na época de Lampião, haviam outros movimentos iguais ao Cangaço em outras regiões do país? Existem várias lendas sobre o nome de Lampião. Nunca vai se saber porque Lampião. uma das lendas diz que quando ele se apresentou para entrar no bando de cangaceiros de Sinhô Pereira, aos 17 anos, ele foi fazer uma demonstração e para isso entrou em uma casa, saiu com o fuzil, pulou a janela e saiu atirando como se tivesse uma metralhadora. Para isso, ele usou um truque: amarrou um lenço na peça que puxa o disparador para trás, amarrou o lenço no cotovelo, de forma que quando ele acionava o gatilho, ao mesmo tempo armava a arma, então, atirava. Isso no Nordeste até hoje se chama "pulo do Lampião". No Nordeste, se fala: "você atirou em mim e eu te atiro no pulo de Lampião." Quer dizer, te dou 10 tiros de uma vez só. Então, ele pulou a janela e fez isso e realmente o fuzil funcionava como um metralhadora. Quando o cangaceiro viu ele pulando, disse: "Viche, parece um Lampião.", de tanta bala que saia. Essa é a lenda que existe sobre esse apelido. Cangaço tem vários significados, é um nome conhecido
na Bahia para cima de 200 anos. Existem várias explicações.
Uma delas é que o Cangaço significa o sujeito que anda embaixo
da canga, o sujeito que é muito humilhado, muito perseguido, muito
oprimido. Como a canga de boi, ele anda com Cangaço, então,
ele anda como um boi debaixo da canga. Outra explicação
que mais serve para explicar os grupos de cangaceiros é que o Cangaço
é toda a trempe, todos os utensílios que os cangaceiros
usam, tudo aquilo vai numa canga que eles carregam nas costas. Por exemplo:
eles carregam panela, arma, munição, rapadura, tudo aquilo
nas costas, era chamado Cangaço. A outra explicação
é que o cangaceiro, como carregava tudo aquilo nas costas, ele
vivia debaixo do Cangaço, daí, a palavra cangaceiro, o que
carregava na canga o Cangaço. Os meios de opressão, hoje, são muito piores, pois quando é preciso matar, os chefes políticos têm seus matadores profissionais que matam de tocaia. Eu estava no Nordeste recentemente quando um médico foi assassinado por um crime de família, por um matador que nunca ninguém vai descobrir quem é. O progresso é, na verdade, o grande responsável pelo fim do Cangaço, principalmente, os meios de comunicação. Eu gostaria de fazer um adendo muito curioso. Com as estradas que permitiram cruzar a caatinga facilmente, o avião que permitiu observar, foi impossível a sobrevivência dos grupos de cangaceiros, mais ainda, a migração. Então, o progresso tem uma grande importância no fim do Cangaço. Ao mesmo tempo, pelo menos no Rio Grande do Norte, que eu conheci agora e andei bastante por lá, no interior do Rio Grande do Norte, a entrada do progresso é uma desgraça, o progresso leva a fome para o Rio Grande do Norte. Por que? Porque o interior do Rio Grande do Norte ainda funciona num regime de terra de agregado, trabalho na terra e fica ali ganhando os produtos da terra. Numa fazenda de gado, por exemplo, tem tanto leite que eles acabam fazendo queijo. Por que esse excesso de leite? Porque não tem usina de pasteurização de leite, não tem fábrica de laticínios no interior do Nordeste, e não tem caminhões tanque para transportar o leite. Então, o leite fica na própria fazenda. o queijo é fabricado artesanalmente, e é tanto leite que sobra, que o homem do interior do Nordeste acaba se alimentando muito bem, comendo queijo com rapadura. Quando chega a estrada, a usina, este leite vai para a indústria, e aí, o trabalhador passa fome. O Nordeste é uma tragédia difícil.
- A respeito de Padre Cícero, para muitos religiosos católicos, ele foi um grande defensor de Deus, então, esclareça porque o Padre Cícero foi o contrário? - Como é que ele se envolvia nisso, se para a população era o pai de todos? - O Padre Cícero cooperou para a alienação e falha de informação crítica dos nordestinos no passado e atualmente também? - Por que este Padre ficou tão famoso, sendo que este senhor não é reconhecido pelo Vaticano? Bom, o fenômeno do Padre Cícero é um fenômeno bastante interessante. O Padre Cícero, praticamente, fundou a cidade de Juazeiro, numa época que havia muita fome, muita miséria e ele recebia os retirantes e distribuía comida para aqueles retirantes e, com isso, ele foi granjeando muita fama. Um dia, uma beata que servia ao Padre Cícero, quando recebeu a hóstia, derramou sangue pela boca. A hóstia virou sangue. A partir daí, criou-se o mito que Padre Cícero fazia milagres. começaram aquelas romarias, chegava gente de todo canto. Eu esqueci o nome do coronel que morreu e era guia intelectual do Padre Cícero. Quando ele morreu, não tinha dependentes e deixou a fortuna para o Padre Cícero. Mas, como isso não ficou formalizado, o Juiz de Direito entrou na casa desse sujeito para impedir que os capangas do Padre Cícero pegassem as coisas. Entre uma briga e outra, o Juiz pegou um manuscrito que tinha lá, e nesse manuscrito havia a cópia de um livro que ensinava como fazer quimicamente um pedaço de pão virar sangue... Então, daí se descobriu que foi forjado esse milagre. Quando esse Juiz contou isso, ele teve que fugir do Nordeste porque ninguém acreditou. Daí, vem a lenda do Padre Cícero. O Padre Cícero, em determinado momento, chefiou um grupo grande de cangaceiros que se dirigiu ao Crato, derrubou o prefeito do Crato, que se uniu a um outro grupo de cangaceiros do Deputado Floro Bartholomeu, que depois acabou sendo general e derrubou o governo do estado e o próprio Padre Cícero foi prefeito de Juazeiro e tudo isso ele fez enquanto estava suspenso das ordens, em briga com o Vaticano, porque não aceitavam a posição dele. O Padre Cícero é uma figura mística, de caudilho e de coiteiro também; ele acoitava grande número de cangaceiros, inclusive quando Lampião entrou para o exército patriota, ele veio a chamado do Padre Cícero, que deu alvará para ele cruzar todos aqueles estados do Nordeste sem ser molestado. O fenômeno do Padre Cícero é um fenômeno não tanto de fanatismo religioso, mas um fenômeno de paternalismo que se exercia por meio da religião e que servia a uma estrutura de poder que sustentava grupos ligados ao Padre Cícero. É evidente que esta atuação, já respondendo a segunda pergunta, essa atuação paternalista, essa atuação caudilhesca dele, ao invés de livrar o povo da miséria, contribuía para alienar o povo da miséria, contribuía para alienar o povo dos seus problemas, porque não explicava qual era a razão da miséria nordestina, pelo contrário, Padre Cícero era aliado a vários coronéis do sertão, vários latifundiários, inclusive Floro Bartholomeu. É muito interessante que o Padre Cícero nunca estimulou os posseiros; os peregrinos que vinham ali, os romeiros a se estabelecer em terra nenhuma. Ele dizia que tinha que respeitar a propriedade alheia, ao contrário do que acontecia com Antônio Conselheiro. Logo depois que o Padre Cícero está morto, acontece um fenômeno. Aqueles romeiros do Padre Cícero não têm para onde ir depois que ele morre, então, eles começam a seguir um beato e vão para uma região que se chama caldeirão. Esse beato tem um touro e diz que o touro faz milagres, e começa a fazer milagres com o touro. Só que enquanto ele faz milagres com o touro, diz para o povo ocupar a terra e plantar na terra que a terra é do povo. Aí, vem a força do exército e mata todo aquele povo, repete Canudos. Ali, morrem umas 350 pessoas a pretexto de que elas eram fanáticas religiosas. São coisas muito interessantes que acontecem no Nordeste.
- Completando esta pergunta, pois Chiavenatto tocou na questão do movimento das lutas populares, então, querem saber qual a importância do Cangaço para o movimento das lutas populares e que lição, hoje, pode ser tirada do estudo do Cangaço? Acho que completa a pergunta dele. Quando nós pesquisamos e estudamos a história, a preocupação primeira é chegar a uma verdade objetiva e não no sentido de condenar ou absorver, mas no sentido de tirar algumas lições, para que iluminado o passado, possamos aprender alguma coisa sobre o presente. o passado nos oferece muitas lições. Quando analisamos tudo o que se fala, o que se diz sobre o Cangaço, dando ênfase principalmente no que se diz hoje, o que se pretende, menos que julgar que o Cangaço, é saber quais as lições que tiramos daquilo. Uma das primeiras lições que tiramos, respondendo ambas as perguntas, é que o Cangaço não é realmente uma luta popular, no sentido em que ele não tentava resgatar para o povo nenhuma reivindicação ou condição que interessasse a esse mesmo povo. Ou seja, o Cangaço nunca teve intenção de melhorar de alguma forma a vida do sertanejo ou, o que é muito mais fundamental, o que aconteceu em Canudos, o que aconteceu no Contestado, o que aconteceu no próprio Caldeirão, mesmo no tempo do Cangaço, de ocupar a terra, de tomar a terra do latifundiário e de dar a terra ao trabalhador. Então, quando analisamos tudo isso, tem que se demonstrar o que realmente aconteceu e tentar esclarecer bastante para que nenhuma imagem falsa de um acontecimento histórico acabe deturpando, por alguma influência, as lutas que nós temos no presente. O Cangaço ensinou muito para nós. Um dos ensinamentos, por exemplo, é que o grande potencial revolucionário que existe em alguns momentos pode ser perdido por causa do desvio de comportamentos. O Nordeste, naquele tempo, e naquele espaço, dentro daquele estágio civilizatório, não poderia produzir nada diferente do que foi o Cangaço. A nossa função, a função do historiador é justamente esclarecer isso, de que não foi um movimento popular no sentido de trazer benefícios e avanços sociais ao povo, mas não é por isso que foi um movimento completamente desligado de uma realidade social. O que o rapaz disse também, e que pode parecer muito pertinente é o seguinte: por que, se o Cangaço servia tanto às classes dominantes, por que ele foi liquidado, por que se tratou de liquidar o Cangaço? Porque, a partir de determinado momento, quando as condições sociais, econômicas, de incipiente industrialização, de progresso, enfim, de novas estradas, de novas relações econômicas, sociais surgem no Nordeste, o Cangaço já não é mais conveniente para as classes dominantes. Então, é preciso acabar com ele; se não ele passa a ser um dado de criminalidade que escapa ao controle das classes dominantes. Por isso, o Cangaço termina em determinado momento, porque esgotou a sua necessidade de uso pelas classes dominantes. Perguntas: - Porque os livros didáticos de 1º e 2º grau não trazem dados sobre o Cangaço? - Qual a sua opinião sobre o filme "Lampião", que já passou na televisão? Tem algum valor histórico verdadeiro? - Qual a influência do Cangaço na literatura de cordel? Os livros didáticos geralmente não trazem quase nada no que se refere aos movimentos populares. Sobre o Cangaço, é normal que não falem a não ser naquelas pequenas linhas "movimento de rebeldia social". O que reflete também um sistema de dominação. Uma frase muito boa de Marx, diz que "as idéias dominantes são as idéias das classes dominantes" e as idéias das classes dominantes são passadas através das suas instituições: escola, jornal, igreja, religião, etc, principalmente na escola. Então, não é interessante discutir coisas como o Cangaço, mesmo que seja para dizer aquilo que eu digo aqui, porque mesmo desmistificando o Cangaço como luta popular, ele foi um movimento popular e para se tratar do Cangaço, tem de se falar de algumas questões de onde ressaltam a miséria social, latifúndios, etc. É muito interessante a influência do Cangaço na literatura
de cordel. A literatura de cordel ignora tudo que é ruim no Cangaço
e tudo que é sexo no Cangaço. Ela só fala do Cangaço
de uma maneira heróica, daí, a maior força que se
dá a essa visão heróica do cangaceiro. Existe um
ensaio do Mário de Andrade, que se chama Romanceiro do Cangaço,
em que ele diz o seguinte: "Que os contadores do Nordeste, os compositores
dessas músicas de cordel, eles agem mais ou menos como os poetas
gregos: os deuses gregos, os heróis gregos são perfeitos,
eles não são seres de carne e osso. Na poesia clássica
grega, são tratados apenas os seus grandes feitos e tragédias.
O cotidiano, que na verdade passa a ser a realidade das coisas, não
é tratado, assim como o Cangaço. Lampião é
um sujeito super sabido, ou então, ele é super maldoso,
essa coisa toda. O cotidiano do Cangaço fica de fora." Quando nós dizemos uma coisa, por exemplo: quando se diz que a literatura de cordel não expressa a realidade do Cangaço, não estamos negando a literatura de cordel. É impossível negar a literatura de cordel como transmissão oral da história. O que é preciso é que tenhamos um conhecimento crítico da realidade como o cantador trata essa história. De como ele se insere. Na verdade, o próprio cantador de cordel, faz parte do Cangaço; o próprio Lampião era um cantador, era um compositor. Então, eles têm uma visão muito peculiar da coisa, uma visão mística e que é do ponto de vista deles. Mas do ponto de vista crítico, evidentemente, não corresponde à verdade. A literatura de cordel é muito importante para se entender o Cangaço, sem literatura de cordel não se entende. Vamos agradecer ao Chiavenatto por mais esses momentos, em que ele nos
deu muito prazer e conhecimento. Que o papel fundamental do historiador
é justamente este que ele escreve aqui. É mostrar lições
como modelo para continuarmos na luta, ou então, aquilo que nós
reprovamos, deixar de lado e fazer uma nova tentativa. Então é isso que os livros didáticos precisam mostrar
para os nossos alunos. Os livros não mostram, nós precisamos
procurar pessoas como o Chiavenatto para esclarecer e para podermos apontar
isso para os nossos alunos. |
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